quinta-feira, 16 de abril de 2009

Afinal sou ciumento!

Passei os últimos vinte anos a pensar que não era ciumento e eis que, por um mero acaso, se revelou esse traço negativo do meu carácter...

O acidente que originou esta descoberta ficou a dever-se à providencial interrupção do metro da linha azul, há dias. Assim tive que voltar aos velhos tempos do 28, para ir de Santa Apolónia ao Cais do Sodré e com as obras no Terreiro do Paço este atraso no meu percurso, habitualmente cronometrado ao segundo, provocou o inesperado encontro...

Sapatos com salto médio, sóbrios, meias tom de pele, saia ligeiramente acima do joelho a condizer com o casaco. Um blusa de gola alta creme e a carteira razoávelmente grande, não daria para estacionar o carro mas, com jeito, daria para guardar o portátil que tinha na outra mão. À vontade caberia um EEE de 9”. Claro que combinava com os sapatos e com o cinto, largo.

Fui registando estes detalhes ao aproximar-me da plataforma pensando que a enorme Samsonite ao lado, corresponderia a umas férias da Páscoa passadas no Sul. Seria certamente uma romântica que tinha decidido atravessar o Tejo num cacilheiro para sentir a travessia como o fim desse período de férias passadas em casa de família.

Elegante, simples, sem maquilhagem. Nem sequer uma base suave. Absolutamente nada, como entretanto confirmei. Rosto comprido, óculos fashion davam-lhe um ar interessante, de quem gosta ler e lê alguma coisa mais do que a Happy (não tenho nada contra esta revista, que até tem uma ideias muito, muito giras). Os olhos castanhos, simpáticos, riam-se com naturalidade.

A boca era era muito bem desenhada, extremamente bem marcada e sem baton absolutamente nenhum, nos lábios relativamente grossos. Sensual.

O comboio lá chegou e o imaginado pai, apesar de estar nos seus mais que sessenta (não sou nada bom a calcular idades), agarrou com facilidade na mala e colocou-a dentro da carruagem. As rodas fizeram o resto até chegar ao lugar. Não quis arriscar colocá-la na grade por cima dos bancos.

Ao chegar a Alcântara, já sentia uma pontinha de ciúme enquanto o papá da minha imaginação descansava a mão cansada (talvez do excesso de peso da mala), na perna da suposta filha. Comecei a pensar que uma boa base, suave, e um baton castanho lhe ficariam muito bem. E que pena, agora que os anos 60 estão na moda, que o Mary Quant Q29 já não se consiga encontrar... Ficar-lhe-ia bem.

Fiquei com a certeza que era ciumento quando ao passarmos em Belém já tinham começado os beijinhos no cabelo. Fiquei a pensar se seria a atracção do Herbal Essences, mas não quis perguntar.

Felizmente saí pouco depois, não sem antes ficar com a certeza que o afortunado senhor de meia idade, também era ciumento. Ou então esforçava-se para marcar terreno, mostrando a conquista com orgulho.

Vou já reler “O mundo é pequeno” do David Lodge para ficar a saber se o Prof. Morris Zapp esteve cá em Portugal. Quando li o livro não dei atenção a esse pormenor. A confirmar-se que não esteve, o que fortemente suspeito, volto para o Porto (donde aliás nunca devia ter saído nesse dia), para ir à Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (já deve ter saído da Rua das Taipas) ver se o Centro de Psicologia da Cognição e da Afectividade da ainda está em funções.

Espero, com a ajuda desses investigadores, descobrir a que se devem estas minhas interpretações e a identificação de papel de pai em cavalheiros que acompanham jovens interessantes, eventualmente solteiras, em idade casadoira.

Um rápida introspecção diz-me que esta tendência não se relaciona com o facto de ser Tio (do Algarve). Mas porque será?

7 comentários:

  1. Não me parece que tenha sentido ciúmes, sentiu INVEJA!
    O ciúme é um sentimento de posse em relação à pessoa amada, a inveja é um sentimento de querer e não ter.
    O percurso seguido é que não percebi bem, foi de Santa Apolónia para o Cais do Sodré e apanhou um comboio? Passou por Alcântara?
    Não é que tenha alguma coisa a ver com isso mas fiquei "baralhada" (confesso que já sou um bocadinho, mas fiquei pior)
    Boas viagens, em boas companhias, pelo menos para os olhos!

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  2. Obrigado Maria Teresa! Ficou mais claro esse sentimento estranho e, até essa data, desconhecido para mim. Continuo a achar que também houve uma pontinha de ciúme (...). Quando tiver um bocadinho de tempo, volto ao tema, que tem muito para desenvolver!


    Habitualmente faço esse percurso (Santa Apolónia-Cais do Sodré) de metro. Nessa viagem fiz de autocarro e por isso perdi o comboio habitual da linha do Estoril. Costumo usar essa linha para sair em Fantasy Land ;)...
    Obrigado pelos votos!

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  3. Que teve que substituir o metro pelo autocarro eu já tinha percebido LOL
    Que depois tinha apanhado o comboio da linha de Cascais, onde viajou com o alvo das suas setas, é que não.
    Nem sempre se conseguem fazer inferências com a rapidez de um raio.:):)

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  4. Tenho pena que os teus ciúmes tenham voltado...embora me pareça que eles foram apenas uma forma do teu inconsciente legitimar uma fantasia há muito construída que "gritava" para ver a luz do dia! :)

    Tu nem imaginas as saudades que eu tenho do 28. Também eu, durante alguns anos usava esse autocarro diariamente!

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  5. Veruska,
    Como me conheces bem... ;)
    Também tenho saudades do 28 e até do 28A
    Bjs!

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  6. Lamento informar, mas parece-me que essa menina é filha profissional...

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Hmmm! Let's look at the trailer...

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