segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Talvez não vá dormir a casa.


Esta frase, sem qualquer acentuação, despertou-me da sonolência habitual do final de tarde de um dia stressante, enquanto tentava repousar por uns minutos num comboio. São aqueles minutos que valem por horas e que aproveito algumas vezes. Vi o mar calmo e tranquilo. Podia ser no Estoril ou em Espinho.
O tom de voz não era ameaçador, enigmático ou sequer zangado. Se houvesse algum sentimento naquela calma, seria tristeza. Uma tristeza calma, mas profunda.
Um leitor de MP4 envia-lhe um kuduro progressivo que eu próprio ouvia. Ligeiramente, de forma discreta mas constante, abanava a cabeça ao ritmo que eu também sentia.
Um telemóvel na mão e outro no colo, ao lado do MP4, iam debitando sms que iam sendo respondidos. Um deles tocou. Deve ter vibrado porque não o ouvi, talvez entretido pelo ritmo contagiante do kuduro, ou embalado pelo mar da baía, talvez de Cascais, talvez de Cadiz...
Não queria ouvir, mas não podia deixar de o fazer. A menos que me levantasse e mudasse de lugar o que também não me apetecia nada fazer...
Olhei-a de relance, mais uma vez. Um rosto bonito, tranquilo, uns olhos que, com dificuldade, tentavam ser inexpressivos. Teria vinte anos? Não sou nada bom a adivinhar idades, mas de certeza que não teria mais de vinte e cinco.
Disse que tinha uma notícia que a tinha deixado de rastos. E percebia-se. A calma era de tristeza e a mágoa era profunda. Não era uma ferida ligeira, feita de raspão, sem consequências.
Não queria acreditar no que ouvia, nem queria ouvir o que dizia. Felizmente o comboio lá ia anunciando as estações, e o barulho feito por um grupo de estudantes permitia não ouvir, apesar de não dar para isolar completamente.
De repente, sem qualquer aviso prévio a carruagem ficou gelada. Acho que fiquei paralisado, talvez seja assim que se morre quando se fica parado no gelo. Sem vontade de se mexer, mesmo sabendo que será o fim. Fiquei assim e mesmo olhando para as letras vermelhas da sinalização do comboio, que teimavam em indicar 22º no interior, não acreditava.
Percebi que estava triste porque o amor da sua vida, que recentemente a tinha deixado, já tinha novo amor. Tinha sido abandonada mas, pior que isso, trocada  por outra. Fiquei triste. Não acreditava que era o fim do mundo, mas pareceu-me que sentia que não teria energias para recomeçar...Que poderei fazer, pensei, sem grande esperança. Uma palavra simpática, um sorriso de ocasião? Perguntar-lhe se o kuduro era o que tinha pensado? Provavelmente não iria fazer nada e só seria mal interpretado.
Percebi depois que o amor perdido era de outra mulher. Era uma história de mulheres, entre mulheres. E aí nunca saberia o que fazer ou dizer…
Quando, depois da conversa agarrou no outro telefone e comunicou a decisão de, talvez não ir dormir a casa, fiquei com a certeza que qualquer boa intenção seria trucidada, mal interpretada e inconveniente. O que não me apetecia nada.
Nunca estamos devidamente preparados para todas as situações. Às vezes, ainda bem que é assim. Sobra algum espaço para o improviso, para a originalidade, para o arrebatamento da paixão. Outras vezes não. Não me sobrou nada. Não por ser mulher, ou homem. O ser mulher dificultaria ainda mais qualquer coisa que tentasse. Foi pela determinação calma. Foi isso que me deixou triste. Um pouco como a inelutável calma e serenidade das marés, antes das tempestades...
As probabilidades de a rever são infinitesimais. Desejo-lhe felicidades.
Que se encontre e encontre a felicidade tranquila que a calma que ostenta parece pretender.
E que possa um dia descobrir que não somos todos iguais... E que vale a pena tentar de novo, não talvez, mas sempre!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Votas e Votos para 2015

Como habitualmente, aqui venho desejar-vos muitas e boas festas em 2015. 

Influenciado por esta tendência, de origem new-socrática certamente, de se dirigirem a todas e a todos, como se todos não incluísse todas, aqui ficam as minhas votas e os meus votos para a Ana Nova, para o Ano Novo e para todas as Anas que não sendo novas, também não são velhas, porque nunca o serão. Este é um desejo escrito na forma new-socrática, como repararam: Que as novas e os novos nunca fiquem velhos, mas cresçam em sabedoria e experiência.

E para todas e todos que não sendo Anas, nem Anos, desejo também Felicidade em palettes, charters, ou noutra qualquer unidade de medida que queiram. Pode ser alqueires de Felicidades! 


Para as habitantas e habitantes de Évora, que têm sido tão visitados desde final de Novembro, desejo em especial, que tantas visitas não resultem numa nova taxa para os munícipes dessa simpática cidade. Desejo que conservem esse novo atractivo urbano durante bastante tempo, para que todas as portuguesas e portugueses que não têm mais nada que fazer a não ser window shopping, possa experimentar o jail shopping, descobrindo que se pode combinar voyeurismo e turismo, num novo segmento emergente, o voytur.

Para os cientistas que estão a preparar a expedição à fossa das Marianas, onde se encontra o processo dos submarinos, desejo que não se percam no Pacífico, nem se deixem perder por fossas desconhecidas, nem que tenham que partir umas fuças, enquanto procuram as fossas.

A todos vós, queridas e queridos amigos que aqui me dão o gosto de vos receber, desejo um ano sem tubarões nem robalos ocultos, mas com muitos salmonetes, sardinhas, litões, cações e outros peixes acabados em ões, como limões, mangas, papaias e peras abacates. E nozes, que nunca fiquemos sózes, claro!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Submarinos ao fundo e aviões no céu, a nova batalha aero-naval



Nem os comboios se salvam nesta nova batalha naval em 3D. As dimensões não são o comprimento, largura e altura, mas sim o mar, o ar e a terra, onde se digladiam adversários fantásticos que nos intervalos em off, como nos melhores jogos da antiga batalha naval, tomam o seu cafézinho e pastel de Belém tranquilamente. Pode ser na Benard, no Magestic, ou noutro qualquer local emblemático, mas o mais habitual é mesmo nos corredores da grande casa da dita democracia…

Com o mesmo à-vontade com que disparávamos os nossos tiros para o papel quadriculado do colega da outra fila de carteiras, os nossos sindicatólogos, trabalhatólogos, politólogos e outos logos, de pouco conhecimento e muita lábia e ciência de língua (tenho dúvidas que algumas sindicatólogas e sindicatólogos saibam fazer outras coisas com a língua), debitam atoardas para as câmaras dos vários canais, provocando o caos que todos vemos.

A cereja no topo do bolo, foi mesmo a dos aviões. À semelhança do que aconteceu no passado, greve marcada, milhões de euros de prejuízos e, depois de terem estragado as férias e os negócios a muita gente – será por isso que Alberto João diz que se vai demitir no dia 12? – a greve é cancelada…Os aviões andaram vazios, a rapaziada voou feliz, os portugueses pagaram, mais uma vez a factura e já está! Este ano a variante foi a requisição civil, mas o resultado é o mesmo.

Nos comboios, não houve greve. Não circularam porque a greve era da REFER, uma invenção de algum governantólogo que decidiu separar o que era inseparável, como já aqui referi. Assim conseguiram separar os carris das linhas do caminho-de-ferro, dos comboios, como que separa carros de linhas das linhas, depois de gastas… 

Para completar a trilogia, a outra notícia da semana foi o afundamento dos processos dos submarinos (os de quatro canos). Como se esperava, infelizmente! Parece que tão cedo não vêm à superfície. O Tio tem no entanto a secreta esperança, e partilho-a convosco, que esta questão do Banco Que Por Dentro Não Era Tão Bom Como Parecia Por Fora e Foi Dividido Em Dois, traga à tona mais umas folhas do Vergonhaço, o célebre livro dos feitos rouboléticos dos governantes portugueses…Não chegavam dez cantos para contar as histórias mirabolantes dos nossos dias! Esta não é a ditosa Pátria minha amada, terá dito o alegado autor do mítico livro.

O Tio, como plagiólogo descarado e descaradólogo, diria:


"Esta é desditosa Patria que eu amei,
de Céu agora negro e onde eu sem medo
incauto, inocente e despudorado regressei,
encontrando-a escondida em denso arvoredo.
Acabe eu já, se ao tentar libertá-la errei
Esta que foi Lusitânia é agora arremedo
de Luso, de Mercúrio ou de Hermes antigo.
Os primos, amigos e adversários são, ou parece, companheiros,
e nela a roubar são agora os primeiros."  

Como reconheceram, está é uma adaptação Tiológica do famoso trecho do canto III, dos Lusíadas. Parece que ainda se lê qualquer coisa dele nas nossas escolas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O síndroma de Cinderella na gestão




O síndroma de Cinderella é mais uma das patologias que afecta os new-gestores, a que também já chamei ingestores. Ingestores porque fazem absolutamente o contrário de gerir, mas também pela sua grande pela sua capacidade de engolir. Engolem o que for preciso para manter o tachinho ou determinados privilégios, ou até mesmo para aparecerem naquela fotografia da Trombas ou da Luminária. Como consolação sabem que vão fazer pior aos outros do que fizeram a eles…

Pois este síndroma de Cinderella que se manifesta, sobretudo, em ingestores de idades compreendidas entre os 30 e os 45, apesar de já se terem verificado vários casos em faixas etárias mais desenvolvidas, tem vindo a mostrar-se de uma perigosidade média. Não sendo demasiado contagioso, deixa algumas marcas preocupantes no que respeita à expectativa de vida normal. É também conhecido pelo nome comum de Gata Borralheira.

É conhecida de todos a história da Cinderella, uma menina que vivia escravizada pelas suas irmãs feias e apenas preocupadas com a vida social, Facebook, Instagram, Pinterest, guest lists, private parties, etc, deixando os trabalhos domésticos para irmã, qual patinho feio. E isto tudo com a cobertura da madrasta, megera com idênticos hábitos sociais das filhas.

Um dia apareceu um mágico que transformou a nossa querida Cinderella numa princesa, mas até à meia-noite, hora em que o agradável feitiço terminou. A Cinderella ou Gata Borralheira, saiu do Baile a correr deixando para trás um sapato de vidro. O príncipe, com o seu fetiche por sapatos, percorreu o reino a mandar tirar os sapatos às meninas até que finalmente chegou à Cinderella, a única a quem o sapatinho serviu no pé. A borralheira transformou-se então em gata e passou a enrolar-se com príncipe todos os dias, durante muitos anos. E foram muito felizes.

Na gestão este sintoma é detectável, não quando vemos alguém tirar o sapato numa cerimónia pública, mas sim quando se vê alguém à espera de um milagre. Com ar sonhador, faz exactamente o que lhe mandam, mas fica a aguardar o milagre da mudança. Uma fada mágica vai aparecer, normalmente na pele de um sócio pouco participativo na gestão, ou de uma agência de head hunting ou recrutamento, e vai transformar a vida destes ingestores bonzinhos, que nunca se lembraram de atirar as cinzas da lareira para cima das manas feias e más nem de dar uns comprimidos para a diarreia à madrasta. Menos ainda se lembraram de sair de casa e de se fazerem à vida, como os primos…

Este síndroma também se manifesta numa fase “pós fada madrinha e baile de sonho”, em que tiveram conhecimento de outras realidades, mas foram prontamente para casa e agora estão pacientemente a aguardar que o príncipe venha testar o pézinho. São tão bonzinhos que aguardam pacientemente o milagre. Se algum Tio, mesmo o do Algarve se cruza no seu caminho e sugere que saiam de casa, eles ficam pacientemente à espera da oportunidade que nunca virá. Provavelmente vão viver mais tempo que as manas que ocuparam sucessivamente o lugar da madrasta e, depois destas, vão ser ainda mais mázinhas do que as manas e a velha megera foram para ela. Racionalizam assim suas as frustrações, criando noutra qualquer terceira pessoa o mesmo síndroma. É um percurso circular…

Uma característica comum a todos os indivíduos com esta patologia, é a submissão e a aceitação. Aceitam as várias situações, e são submissos, não fazendo o mínimo para sair delas. A vitimização é também constante, mas não falam muito no assunto, esperam que os descubram.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Um barco chamado não quero!



Caro camarada chefe dos Estaleiros de Viana do Castelo,

Têm sido publicadas umas notícias, falaciosas e completamente falsas sobre o navio que a República Autocrática do Atlântico encomendou à vossa prestigiosa empresa.

Ora o navio não cumpria os requisitos que não tínhamos definido previamente e que modificamos posteriormente! Uma diferença de 0,016 nós, é uma diferença de 0,016 milhas por hora! E estamos a falar de milhas náuticas, o que piora tudo!

Esse Tio, que deve ter conexões no wikileaks – Aqui no Rochedo adoramos essa palavra conexões, a outra é proibida – e consegue detectar os nossos emails todos, é melífluo. Por isso sempre fui claro e transparente como uma vaca malhada da Terceira, não vá o tipo detectar alguma coisa.

Sei que o problema do barco, perdão, navio já foi resolvido, a Dilma tratou de ficar com ele, caso contrário estaria disponível para se encontrar uma solução de consenso para o dito cujo elefante, perdão embarcação.

A travessia entre o Corvo e as Flores seria uma hipótese, mas assim foi melhor.

Agradeço que deixes de ter essas leaks, porque fugas num barco, perdão embarcação é o que se sabe. Olhe o Titanic, por exemplo. Não queres ficar com a mesma reputação, pois não? Era tiro no Porta-aviões, como fazemos na Assembleia!

Entretanto um destes dias vamos precisar de uma nave para ir do Darwin até ao Terreiro do Paço, mas talvez um de metade do preço chegue. Não quero dar nas vistas, como o outro nosso amigo. Olha o que lhe aconteceu…

Um abraço do
Carlitos

PS, como sempre: O Paulocas sugeriu um submarino para fazer essas viagens. Era mais discreto e também evitava o trânsito na Ribeira das Naus (O António tem que ver aquilo com olhos de ver). Fazem submarinos aí em Viana? Tens algum barco que possa atracar no Terreiro do Paço e ir até ao S. Bento, tipo James Bond? 

PS de novo e sempre: Olha que tem que servir para andar na Rua das Pretas e nas Portas de S. Antão, gosto muito da Solmar!

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