domingo, 7 de fevereiro de 2016

Subitamente na adolescência



Era noite e passava tranquilamente numa rua de Viseu, em direcção à Sé. Não ia propriamente à procura de conforto espiritual vindo da Sé, ou da igreja da Misericórdia que fica em frente, nem sequer de um banho rápido de cultura, pois a essa hora o Museu Grão Vasco já estaria fechado, como também estariam as duas igrejas. As únicas capelas abertas aquela hora servem outro tipo de vinhos, menos doces, mas bebidos de forma mais ruidosa e menos cerimoniosa, juntamente com outros néctares alcoólicos e não só. Os acólitos são outros e as confrarias também. Reúnem-se com alegria e de forma ruidosa, que se avoluma com o passar das horas. Ia precisamente para uma reunião destas outras confrarias quando, reparo numa montra iluminada, tipo anos 70.

Num segundo, revejo-me no passado, transportado pelas recordações que os produtos expostos me trazem à memória. Pastas Dentífricas Couto, com imagem exactamente igual à das antigas Pastas Medicinais com o mesmo nome. Sabia que tinham sido obrigados a mudar o nome, não porque ao teclar a palavra medicinal, com a pressa, saía medicianal, o que poderia ser uma razão válida. Imagine-se o que aconteceria se se trocasse a forma de aplicação da pasta, ao ler com esse erro medical… Tecnicalidades, como diria o António Lombo.  Enfim, parece que foram as pressões da CE, ou da Direcção Geral da Concorrência ou será autoridade da conCUrrência,que não gostaram do medicianal? Interessa pouco, mas ilustra a pobreza de quem regula e gosta de ser regulamentado.

Não foi a pasta de dentes que me fez regressar à adolescência, mas sim o sabonete. Imaginem que encontrei o Life Buoy, aquele sabonete encarnado, alaranjado, com um tom tipo radioactivo que nós acreditávamos que nos protegia de todos os males? Fazíamos todas as asneiras possíveis e, protegidos pelo sabonete mágico, continuávamos impávidos e serenos…Nem hesitei. Comprei logo dois e uma pasta, que já não é medicinal, mas dentífrica, não vá o diabo tecê-las e ainda ter que mudar de nome outra vez…


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Da tristeza, em geral


Ontem partiu uma amiga. Sim, há algum tempo sabia que a probabilidade desse dia chegar era grande. Não lhe falava há muito, pois custava-me imenso saber da sua dor. Não por egoísmo, ou desinteresse, mas apenas por não querer que, ao contar-me, sofresse mais uma vez...  Não conseguiria suportar esse pensamento e, por isso, estupidamente, fiquei caldado. Até sempre, penso agora, com mais uma tristeza: A de não lhe ter falado. E agora nem gritando me vai ouvir. 


Esta praga ceifadora que atinge todos, sem escolher idade, sexo ou religião, aparece pela calada, quando menos se espera, é certeira, terrivelmente certeira. Poucos lhe escapam, e esses, apenas quando têm a sorte de a descobrir antes do tempo.

Custou-me mais desta vez, sim é verdade. Porquê, não sei. Revejo o seu sorriso aberto, franco e contagiante, o seu ar alegre e sempre bem-disposto e não consigo perceber porquê. Porque me custou tanto, acho que começo a perceber: Recordo o último Tango que dançámos e finalmente percebo.

Hoje, olho para o céu e sei que tem mais uma estrela, muito brilhante, que nos guia, neste mar escuro e frio. Este pensamento ajuda-me, porque ontem morreu-me mais uma parte da alma…




 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A Páscoa chegou mais cedo



Este ano a Páscoa chegou mais cedo. Associamos, no imaginário judaico cristão, a Páscoa a sacrifício. As cores predominantes são o preto e roxo. A cor litúrgica da quaresma é mesmo o roxo, que simboliza a penitência, o jejum e a oração… Nada mais apropriado ao terramoto anunciado do Banco que veio do Funchal para nos obrigar a penar, a jejuar em verdadeira penitência forçada.

Cada vez que vejo aquela cor nas montras (parece que já a estão a substituir por encarnado – talvez da paixão, simbolizando o sangue derramado?), fico a pensar nos pecados que terei cometido para merecer tal castigo… Vê-se que fui educado nesse imaginário cristão mas, depois de uma análise profunda, concluo que não fiz nada para merecer isto! E, de certeza, quem lê esta pequena prosa também não!

Bem, hoje é Natal e a Coca-Cola deu-nos um Pai Natal, com um casaco encarnado, debruado a branco. Que seja o encarnado, então. Viva o Pai Natal, viva o mundo de fantasia, que a realidade é tão má que não dá para acreditar.

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