domingo, 20 de setembro de 2009

Depressão

Depois dos cartazes nos autocarros (de certeza que a intenção é provocar acidentes) a alertar para o problema da ejaculação precoce, chegou a vez da depressão, nos mupis. Prevê-se que venha a ser a doença a atingir mais pessoas em dois mil e qualquer coisa. Refiro-me à Gripe D e não à ejaculação precoce que, a avaliar, pelos cartazes só atinge os homens vestidos de violeta e roxo. Há quem diga que há pior do que isso. Felizmente estou numa idade em que ainda me parece remota a possibilidade de haver pior, mas já longe dos anos em que, eventualmente, vivemos com esse receio… By the way, haverá alguma coisa semelhante à EP nas mulheres? Só tenho ouvido falar do problema inverso...

Vivemos, cada vez mais sobre pressão, na maior parte das vezes causada sem nenhuma necessidade, apenas por um conjunto de situações que não controlamos e com que muita gente não sabe lidar. A pressão social nos estudantes do liceu, a insegurança das pessoas, o exacerbado egocentrismo nalgumas chefias, conjugado com o medo de perder poder e estatuto, ou uma vontade de o ter seja a que preço, contribuem para que, deste muito cedo, se viva sobre pressão, por via directa ou indirecta.

A falta de auto-estima, os egos supervitaminados, a falta de referências, o desequilíbrio entre o pretender agradar aos outros e gostar de si, a integração em grupos na adolescência e depois dela, a mudança constante de padrões, motivada por tendências cuja origem não pretendo analisar, todas essas pressões, aliadas a uma falta de esperança generalizada, levam a que, cada vez mais pessoas se sintam deprimidas.

Comecei este post a pensar que iria fazer um trocadilho com a palavra pressão e depressão mas, quando leio que uma miúda de dezasseis anos se atirou para debaixo de um comboio por que se zangou com o namorado (ou vice-versa), já não me apetece brincar.

Também não me apetece mais ler o Correio da Manhã, enquanto espero pelo café, de pé, num balcão. Como é possível chegar a estas situações? Como é possível que as ignoremos? Como é possível, não estarmos um pouco mais atentos aos outros? Como é possível que um miúdo repare no telemóvel novo de uma colega, e não veja a colega? Como é possível que um pai ofereça um i-pod a um filho e não o ouça, sem phones? Ou ofereça um portátil, cuja principal e quase exclusiva função é ver filmes e jogar, e não lhe dê um abraço, não o olhe nos olhos e não o veja?

Como podemos olhar sem ver? Como podemos testemunhar e não gritar? Como podemos não fazer parar estes comboios que trucidam, com a calma das nossas palavras, o calor do nosso coração e a força dos nossos braços?

4 comentários:

  1. Ia fazer uma graça relativamente ao primeiro parágrafo...mas mediante o resto do texto, não o vou fazer. Digo apenas, tendo tido formação em sexologia clínica, que não, não há registos do problema inverso(no estrito sentido do termo).

    Em relação ao episódio que referes, penso que saberás, que apesar de ter sido na Trofa, a adolescente era de Santo Tirso e morava bem perto de mim. E tens razão numa série de chamadas de atenção. Vivemos diante de tantas injustiças e indiferenças, e tendemos precisamente a nos sentirmos impotentes e a nos refugiarmos na depressão...cada vez mais, como dizem as estatísticas e a evidência.

    E se gritarmos...será que alguém nos ouve?E esse alguém... não somos nós afinal?? Incongruências demais da vida contemporânea sem qualquer sentido para aqueles que ainda vão estando lúcidos...that's why I'm an outsider...

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  2. Olá Eva,
    Também comcei a brincar. Interrompi para tomar café e eis a notícia. Como sempre, tentei fazer a relação. E ficou assim. Mas podes brincar ;)))

    Às vezes, apesar das paredes serem de vidro, infelizmente são de vidro duplo, com isolamento acústico demasiadamente bom. Nesses casos é melhor abrir a janela, ou partir o vidro...Outras vezes somos nós que fazemos as paredes...Mas como a tua ocupação é psicologia, deves saber melhor ao que refiro.
    Bjs

    PS: Tenho sempre à mão um daqueles martelinhos de emergência, que se usam para partir os vidros dos autocarros e comboios. Just in case ;)

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  3. Depois do que a Eva e o Tio disseram só me resta dizer ou melhor repetir: "há muitos que escutam só que não ouvem, porque quando se ouve, entende-se."

    Vem a despropósito mas o Tio tem um desafio no meu blogue, espero que o aceite quando estiver com alguma disposição.

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Hmmm! Let's look at the trailer...

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