quinta-feira, 21 de maio de 2009

Estágio incendiário ou potencialmente escaldante

Começa o verão e a época dos incêndios, oportunidade que os vários ministros de várias pastas costumam aproveitar para dizer uns disparates relacionados com o tema referindo, sob a forma de números, quantidades de meios aéreos, terrestres, humanos, duma forma tão precisa e exacta que se fica com a sensação que não há mais ninguém naqueles ministérios. A dúvida, sobre a possibilidade do leão espanhol se ter refugiado num ministério português há muito tempo, instala-se e fundamentadamente.

Felizmente também é a época dos estágios, onde as casas grandes, quintas e outras residências do género, que a Direcção Geral do Turismo, estranhamente insiste em designar por Hotéis, Conjuntos Turísticos e outros nomes semelhantes, apenas para enganar o “trade”, em geral, e alguns clientes em particular, recebem estagiários.

Também as Escolas Profissionais a agora as Escolas Secundárias, têm estágios curriculares integrados nos seus planos de estudos e esta é, normalmente, a época em que todos esses processos se iniciam.

E o destino, que nos prega estas partidas, lá fez com que o Tio fosse receber, não os estagiários (ai esses pensamentos incendiários...), mas a responsável pelos estágios de uma escola cá do Portugáu.

Até nem queria, mas lá calhou, era quinta-feira à tarde e, talvez tenha sido por isso. Também não parecia prometer. Um antigo Liceu, agora baptizado (com P, de piada) Escola Secundária, com cursos profissionais e de Pastelaria, que queriam colocar estagiários na Fábrica de Doces de Santinha? Ainda se fosse na Fábrica das Bolachinhas...

Lá me disseram que tinha chegado a senhora professora e que a tinham levado para uma sala de reuniões. Mais um telefonema que correu mal e passaram 15 minutos, que me colocaram, logo, em desvantagem, até pela imagem da “setora” que estupidamente tinha construído nesse espaço de tempo (más influências da TV...).

Cheguei à sala onde já estava sentada. Entrei por outra porta e vi-a de lado. De imediato percebi que na época dos fogos uma só faísca pode provocar um grande incêndio. Sabia que tinha os meios necessários para lidar com a situação, mas desconhecia se os podia usar.

Era uma senhora, não se levantou, mas aqueles olhos verdes e a voz grave quase que inverteram a situação e me disseram para ficar à vontade. Claro que houve aquele pequeno gesto de faz de conta que se levanta mas claro que não levanta nem tinha que levantar e que teve como primeira consequência ficar ligeiramente inclinada para a frente, numa posição de atenção, que quase me deixou a salivar correndo o risco da baba manchar a gravata e colar as folhas do caderninho A5 que costumo levar para as reuniões.

Consegui controlar-me e, num esforço fenomenal de contenção, tive que dizer aos meus olhos para ficarem a olhar para aquelas janelas de oceano, sem fazer cara de parvo, em vez de ficar a analisar a resistência da blusa justa, ao súbito e duplo esforço de compressão a que passou a ficar submetida. Felizmente o tecido resistiu, sem revelar fadiga, que teria ocasionado alguma transparência, pelo rarear das fibras e que podia fazer despoletar o incêndio, já de si iminente. Percebi de imediato o significado do alerta vermelho e também percebi o exagero da Protecção Civil ao chamar Alerta Vermelho quando a temperatura e humidade relativa atingem valorem apenas ligeiramente acima da média.

Entretanto continuávamos naquele “small talk” das razões que tinham levado a Escola a escolher a Fábrica dos Docinhos para colocação dos estagiários, enquanto o Tio, mentalmente ensaiava teorias sobre as razões que levam os adolescentes a faltar às aulas quando à competência técnica e cientifica e à capacidade pedagógica se juntam estes atributos...Estava a chegar à crise de valores da adolescência, quando percebi que a pergunta era sobre o horário dos estagiários e disse logo que sim ao almoço, apesar de só depois ter percebido que a pergunta era sobre o almoço dos estagiários e não sobre outro qualquer almoço.

A conversa ia fluindo e o Tio lá conseguiu recuperar o controlo da situação.

Quase o ia perdendo quando a sua mão direita colocou no lugar o cabelo que se tinha desviado 5 mm para o lado. Aquele gesto longo talvez tenha tido como objectivo devolver o cabelo ao seu lugar original, mas podia com facilidade ser utilizado pelo fabricante das blusas como prova irrefutável da resistência dos tecidos e rigor das costuras.

Pude ver que naquela escola já não se usava giz, que seca as mãos e queima as gargantas, a avaliar pelas mãos bem tratadas, com dedos compridos e unhas muito bem arranjadas. Não eram de gel, mas também para quê? A voz rouca não se devia a qualquer pó de giz, antes a uma necessidade de alinhamento, dando expressão adequada a tanta sensualidade.

Mentalmente revi o perfil que tinha rapidamente absorvido quando entrei na sala. O que restava do meu cérebro, já completamente inebriado pelo aroma discreto desse veneno puro (Pure Poison), que a Dior tinha lançado há já alguns anos para nos por à prova, mas ainda conseguiu juntar as partes e fazer uma imagem 3D, que levou a imaginar quais seriam os efeitos com o Hypnotic ou com o Midnight...

Uma pasta abriu-se entretanto, antes de poder tirar qualquer conclusão e saíram de lá uns papéis que se espalharam pela mesa de reuniões. Imaginei um catálogo de cruzeiros, de férias exóticas em locais paradisíacos, mas não. Era o protocolo dos estágios e parece que tínhamos chegado à parte dos documentos.

Distraído, debaixo da assinatura, em vez da data que habitualmente coloco, escrevi o meu número de telemóvel. Um acto falhado que, feliz ou infelizmente, não foi detectado.

Ou teria sido?

4 comentários:

  1. Descrição muito bem detalhada daquilo que lhe "despertou" os sentidos, é de homem!
    Se fosse mulher tinha notado que uma senhora não usa o Poison nesta altura do ano, que de discreto não tem nada, a não ser que esteja a falar de outro perfume...

    E esta hein?
    Maldade pura!!!!

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  2. Ai que maldosa, que me saiu...

    Mas nesta casa, não é tudo absolutamente exacto, no tempo e espaço...Melhor: Quase nada corresponde e se encaixa no puzzle do dia a dia.

    Deixe-me procurar no baú das recordações:

    http://empresaportuguesa.blogspot.com/2008/04/disclaimer.html

    PS: Quando faz de má, é mesmo mazinha? Muito? Puro veneno?

    E agora, a esta hora da noite deixou-me na dúvida. Terá feito de propósito, ao usar um aroma tão forte, fora de época? Seria de Espinho?

    LOL!!!

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  3. O meu signo oriental é serpente, está tudo dito!
    Não consegui ir ao endereço que indica porque parte ficou por baixo deste rectângulo, onde está inserido este outro rectângulo onde estou a escrever.

    Confuso? Eu estou...

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  4. Com tanto rectângulo, estou a ver tudo redondo!!!
    ;)))

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Hmmm! Let's look at the trailer...

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