terça-feira, 8 de novembro de 2011

Da tragédia grega à opera buffa, uma questão de comédia.

Podiam ser os vinte séculos de distância entre estas duas formas de expressão artística a fazer a diferença entre elas, mas não. A Tragédia Grega, agora tão em moda pelas representações dos grande actores da actualidade, tem características próprias. Não vou se exaustivo, mas o Pathos, a Peripécia, a Catástrofe e, por fim a Catarse (Katharsis), são elementos que continuam a acompanhar as nossas vidas no dia-a-dia de 2011, apesar de, por vezes, nos custar a encontrar esse último elemento purificador… Há mais de dois mil anos que os gregos representam tragédias. Curiosamente, na Tragédia o número de actores era diferente da Comédia, como também eram o guarda-roupa mas eram todos homens, usando máscaras. As “personas”…

A Opera Buffa, herdou da commedia dell'arte os personagens, e desenvolveu-se a partir dos intermezzos das ópera tradicionais, vindo finalmente a ser reconhecida como um género autónomo, já com vários actos. O seu cariz cómico, com personagens mais próximas do real, retratando cenas do dia-a-dia, contribuiu para o êxito deste género de ópera.

Em Cannes, habitualmente realiza-se um mítico festival de cinema, outra arte bem mais moderna, mas decorrente das representações teatrais antigas, onde se incluem as que mencionei e que dão título ao post.

Ficamos na dúvida se terá acabado mais um acto, ou uma bobine, mas temos uma certeza: As peripécias vão continuar, o Arlequim e a Columbina continuam em cena, o servo desonesto, o pagliaccio e o dottore também. Aliás há cada vez mais personagens destas… Neste novo género de farsa popular, quem se diverte são os actores. O povo paga e sofre, porque gosta.

Os actores tornaram-se os empresários desta nova forma de arte e são eles que decidem as peças e os papéis. As Companhias são meros instrumentos para os actores se exibirem e reclamarem legitimidade de estar no palco. Nessa sanha de conquistar audiências foram arrebanhando mais público e mais companhias novas, pequenas e sem recursos que se juntaram à festa. Agora não têm capacidade para as mega produções que os actores impõem, juntamente com os seus mecenas…

E os espectadores não perceberam que a catástrofe anunciada pelos actores é, na realidade, a catarse! Mostram-se patologicamente preocupados com as peripécias, imaginando que os actores estão mesmo a sofrer…

Luigi Pirandello, tinha razão afinal, falhando apenas no número: Não seis, mas sim vinte e sete personagens em busca de um autor, que é o que temos menos, infelizmente.

10 comentários:

  1. Gostaria de ler algo teu sobre o teatro de fantoches e quem os comanda. :)

    Não sei como descrever a tua analogia, sem usar adjectivos já repetidos noutros textos, por outras pessoas.

    E sim, é um elogio à tua habilidade de escrita. Um primor!

    ResponderEliminar
  2. As tuas metáforas e as tuas analogias são sempre deliciosas.
    (nem sempre as apanho... mas isso já é outra história... hehehe)
    Até o Nobel da literatura foste chamar à colação!!

    De "tragédias Gregas" andamos nós fartos e ainda nem a meio do primeiro ato vamos.
    (brrrrrrrr... "acto" sem o "c" fica sinistro!!)

    Mas olha que lembraste bem, no início os atores eram todos homens (até nas artes performativas as mulheres eram discriminadas) pois talvez só com Molière apareceram as primeiras mulheres a representar!

    Mas infelizmente hoje em dia continua a haver muitas formas de dicriminação. E mesmo na política, nem com a lei da paridade promulgada em 2006 se vêm muitas mulheres no parlamento.
    Será a política pouco atrativa para o sexo feminino?
    Não gosto nem costumo fazer generalizações... porque se fossem todas como eu, aquele parlamento era uma monotonia cromática!
    ahahahah

    Beijinhos às cores!! :)

    ResponderEliminar
  3. Pseudo,
    Excelente ideia essa dos fantoches!Vou tentar...
    Obrigado! Ainda fico convencido, com esses elogios. ;)

    ResponderEliminar
  4. Orquídea,
    Fui buscar essa história dos homens, por causa das máscaras e da também da merquela, que não estou seguro se será mulher...

    Se fossem todas como tu o parlamento devia ser muito mais giro, tenho a certeza!

    Quanto ao acto estamos de acordo, se bem que o ato também me remete para contexto interessantes...

    Não te posso mandar beijinhos coloridos porque pode ser mal interpretado (...). Vai só um beijinho verde, de esperança que a representação continue e os actores sejam atirados às feras. Ou isso era no circo romano?

    ResponderEliminar
  5. Circo Romano?? Olha, aí está algo que nunca deveria ter existido!
    Os Romanos teriam feito muito melhor em ter aprendido umas coisas com os Gregas a propósito das artes e formas de entreter um vasto público. Pegavam nos Cristãos e, em vez de lhe atirarem as feras em cima, ensinavam-nos a representar!
    heheheh
    Coliseus sabiam eles construir!...

    Voltando às mulheres no teatro, lembrei-me de um filme delicioso com a Gwyneth Paltrow e o Jeoffrey Rush, o "Shakespeare in Love", em que a amada do jovem William disfarça-se de homem para poder entrar na peça!

    http://www.imdb.com/title/tt0138097/

    Quanto aos beijinhos, já deves ter reparado que eu acho piada aos beijos temáticos... por isso espero que ninguém me leve a mal por causa de alguns bem "estrambólicos" que eu mando.

    :))

    ResponderEliminar
  6. Orquídea,
    Pois é, mas nessa altura os romanos não tinham o jeito para o teatro que têm agora!!!!
    Não vi o Shakespeare in love, mas a Paltrow a fazer de homem é caso para fazer mossa nalgumas convicções...
    Já reparei nos teu beijinhos, super divertidos e sempre bem vindos ;) Só falei nos coloridos, que podiam ter interpretações diversas...Vou palgiar e envio beijinhos matutinos (já acertei a hora do blog, uff)

    ResponderEliminar
  7. O festival de Cannes deste ano teve dos piores actores de sempre. Foram 20 e todos começavam com a letra G.

    Estou a tentar copiar o teu estilo de escrito mas com pouco sucesso... ;)

    ResponderEliminar
  8. Há quem diga que a culpa é di "Fatum"...mas olha que eu ainda estou longe da minha "Catarsis"! ...não me sinto purificada nem revigorada. "Sinto uma raiva a crescer-me nos dentes"!!!...

    Continu a dizer que aposto que és daqui da zona de Magualde...Gouveia,...ou isso...só pode....

    Bj
    BShell

    ResponderEliminar
  9. BlueShell,
    Também sinto essa raiva, e um revolta surda, que vai crescendo...

    A foto do blog é da Serra da Estrela e foi tirada cá pelo je, numa tarde de Março. MAs não foi em Mangualdade nem em Gouveia:

    http://empresaportuguesa.blogspot.com/2011/08/nelas-manelas-forca-nas-canelas.html

    ResponderEliminar

Hmmm! Let's look at the trailer...

Siga o Tio pelo e-milio