segunda-feira, 23 de julho de 2012

O gorgulho nacional


Um sentimento característico da geração anterior à minha e que fazia parte desse inconsciente colectivo que Jung nos fez descobrir, era o do orgulho nacional. Ser português era motivo de orgulho. Uma nação inteira que se estendia por vários continentes, vibrava com os desfiles, as paradas, os atletas de aquém e além-mar… Um desses momentos de celebração do orgulho nacional foi Exposição do Mundo Português na década de 40, que recentemente está a ser redescoberta.

Evidente que não tenho qualquer memória real de tempos onde ainda fazia parte da “massa dos impossíveis” e as imagens que retenho chegaram-me via mass media ou pelo tal conjunto de arquétipos que inconscientemente herdei, de recordações certamente vagas de pessoas que viveram essas épocas áureas do regime, em tempos anteriores ao nosso. Recordo-me das linhas de caminho-de-ferro que aprendíamos na escola e que muito percorri na realidade de jovem e na imaginação de miúdo. Já as produções agrícolas de Angola, Moçambique, Timor e S. Tomé e Príncipe são uma amálgama de café, mandioca, milho e cacau, onde se misturam rios que podem atravessar África e Montanhas mais altas que a serra da Estrela que entretanto substituiu o Pico Ramelau no ranking das alturas nacionais. Não sou da geração do apogeu, nem da do declíneo do Estado Novo.

Recordo-me da emoção dos jogos de hóquei em patins Portugal-Espanha, transmitidos a preto e branco, nas mesmas cores em que nos chegavam as aventuras de Tintin transmitidas pelo mesmo meio de comunicação, à hora de almoço e ao fim da tarde enquanto esperávamos para tomar banho, antes do jantar e depois de uma tarde inteira na rua…Também me recordo do Fernando Mamede ter desistido de uma prova transmitida de madrugada pelo único canal que havia e sobrava (porque tínhamos mais que fazer) e das medalhas do Carlos Lopes e da Rosa Mota, que nos fizeram emocionar ao sentir essa enorme alegria de ver a bandeira de Portugal nos Jogos Olímpicos. Sim nessa altura ainda nos sentimos orgulhosos dos nossos atletas, com vidas como as dos outros mortais, mas que foram mais além. E também tínhamos o José Hermano Saraiva, que nos recordava os feitos dos nossos antepassados.

Não tenho ideia nenhuma de jogos de futebol na década de setenta ou oitenta, a não ser os do Sporting, com o Yazalde (espero que seja assim que se escreve), a marcar golos e o Damas à baliza, por isso não sei se, participámos em mundiais de futebol. Tenho uma vaga ideia do México onde o Bento (outro grande guarda-redes) partiu uma perna e a selecção teve a brilhante ideia de fazer greve. Uma ideia original, sem dúvida. Vinte anos antes tínhamos perdido nas meias-finais do Mundial, em Inglaterra, onde o Eusébio e outros fizeram um brilharete. E é o que sei do futebol desses vinte anos, com excepção de um europeu ou mundial, onde perdemos com a França, indecentemente roubados com uns penaltys forjados. Não me recordo de bandeiras à janela nessa altura, nem de vaias ao Miterrand.

Ora hoje, como nas décadas de 40 e 50, também a nação coloca bandeiras à janela, mas não para manifestações politicas. A nação vibra com os feitos de outros portugueses, mas não com os feitos históricos… Os homenageados viajaram mas não são navegadores e a independência, que até vai deixar de ser feriado, deve passar a referir-se a árbitros que foram isentos. As vitórias nas batalhas não se referem a Atoleiros, Valverde, ou Toro (esta será sempre um exemplo que nem sempre vencer, significa ganhar), mas a sim a vitórias em fases distintas do campeonato europeu ou mundial de futebol… Hoje já ninguém sabe quem foi Duarte de Almeida, ou a razão do nosso rei D. Afonso V ter agarrado em armas para defender a sua sobrinha, Joana, a Beltraneja como é conhecida em Espanha. Zamora confunde-se com Samora, que pode ser uma localidade com um nome de pessoa que entra em algumas anedotas...Hoje a televisão traz-nos as marcas dos carros dos jogadores de futebol, os nomes de namoradas, as discotecas que frequentam e os buracos onde andam atolados alguns dos nossos governantes recentes e as chorudas contas bancárias das sobrinhas …

Hoje, temos jogadores que ganham fortunas mas que têm medo das lesões e arriscam pouco, a não ser nos penteados, que até chegam a mudar no intervalo dos jogos. São mais importantes pela imagem e pelo potencial de merchandising do que pelos golos. Talvez por isso já não façam greves… Os bancos aproveitam-nos como imagem e os papás e mamãs ficam vaidosos quando os garotos estão nas escolas de futebol e entram em campo com as estrelas... Estes pequenos momentos de vaidade servem para mostrar que os filhos não são tão maus na escola regular como os professores os querem fazer crer…Estamos para além do Milo com o Humberto Coelho e do apelo a uma vida sadia. Estamos no apelo ao futebol e à massa, ganha não importa de que maneira.

Enfim, pouco mudou e os sintomas são os mesmos…por isso, ao pensar no ter e no ser e na importância dada ao ter, ou seja, à massa, penso que em vez de orgulho nacional, estamos sim cheios de gorgulho nacional: uns bichos que sorrateiramente se vão alimentando dos cereais que o povinho armazenou, a custo. E como eles gostam de massa…

Adeus José Hermano Saraiva. Hoje é tempo de outra alma...

2 comentários:

Hmmm! Let's look at the trailer...

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