sábado, 19 de junho de 2010

Vivo, malgré tout

Notícias chegam-nos todos os dias, mas cada vez menos são as que queremos. Piores do que o esperávamos, muito piores que o desejávamos. Serão as que merecemos? E de muitas origens, desde os sumptuários gastos dos nossos governantes, aos escandalosos ordenados dos gestores públicos, passando pelos desbocados gastos e gostos da nossa selecção, digo, do “escrete verde e encarnado”. Não, não é engano, não é do escroto verde e encarnado. É mesmo escrete, como usam os “nossos” queridos comentadores futebolísticos em férias na África do Sul. Ficam tão queridos quando dizem, com aquela pronúncia baiana, que “o escrete canarinho” é a selecção favorita. São queridos, é para nos preparar para a “cabazada” (isto sim é português) que vamos apanhar neste mundial.

O futebol ultrapassa tudo e se não tivesse lido a “Tribo do Futebol”, do Desmond Morris, que me surpreendeu nesse livro, talvez não encontrasse outra explicação que não a ganância ou a vontade de alienação colectiva para esta loucura. Assim, acredito na possibilidade deste desporto nos estar no sangue, enquanto primatas, e fico mais convencido da inexorabilidade da decadência da nossa sociedade.

Esqueço os 280.000.000 de euros que se estima que venha a custar o mundial em percas de produtividade (a terça-feira à tarde foi excelente, para tratar de qualquer assunto em repartições públicas), esqueço que a nossa selecção é a segunda mais cara em instalações, esqueço os desvarios deste governo e o desgoverno deste país.

Percebo pelo silêncio dos gritos desses instrumentos infernais, que Portugal deve ter perdido ou empatado. Esqueço as vuvuzelas e o Mundial. Esqueço, mas não posso ignorar. Esqueço, mas não posso ignorar as declarações bacocas do nosso primeiro a propósito da golden share na PT e do pseudo poder de decisão do governo nas decisões da dita cuja, ou das outras ditas cujas. O governo vai usar a golden share para impedir a venda da Vivo? Foi a pergunta que originou outra brilhante reposta, em forma também de pergunta: É para isso que servem a golden share, não é?

Não, não é, como lhe devem ter dito depois. Foi o calor do Brasil, e a proximidade do mundial, que baralhou o nosso primeiro. Esqueço a privatização da PT, EDP, Petrogal e outras milhões de alienações, para não dizer vendas ao desbarato, de muitas jóias a preço de pechibeque. Esqueço outras tantas compras de fantasias a preço de jóias verdadeiras, pelo estado, ou pelo BPN que todos nós pagámos, através da nossa Caixa Geral de Depósitos. Esqueço isto tudo, mas não ignoro.

Esqueço a célebre expressão, de que há vida para além do deficit. Esqueço o país maravilha que em meses de governo hipócrita se transformou o que antes estava de tanga. Esqueço mas não posso ignorar.

Esqueço o saudoso IPE que juntava as participações do Estado. Esqueço a venda de ouro que escandalizou muitos portugueses, mas que foi apontado como um bom negócio.

Esqueço o aumento brutal e sempre crescente da dívida pública nos últimos 25 anos.

E porque esqueci tudo isto, não percebo a reacção contra a venda da Vivo, querendo misturar negócios com futebol, patriotismo com cegueira. Vendemos a mão, o braço o corpo e até o espírito e agora, por patriotismo, não vendemos os anéis. Renegámos a palavra Pátria e até a Mátria da Natália Correia, mas agora somos patriotas e por isso recusamos liminarmente a venda à Telefónica da participação da PT na Vivo. Mas o S. Judas vai fazer o milagre, que o Santo António e o S. João e S. Pedro não fizeram e vamos acabar o mês com a venda, não porque a devêssemos fazer, porque seria um bom negócio, mas sim porque vai haver um dividendo extra e um prémio de gestão, aposto.

Vejo todas as notícias que falam na redução do deficit, sempre à custa do aumento dos impostos e nunca à custa da redução dos gastos. E esqueço.

Esqueço tudo isto, adormeço, ao som das vuvuzelas, mas tenho pesadelos e acordo.

E revolto-me! E como esqueci, revolto-me de tudo, já sem saber de quê.

E vivo, malgré tout.

3 comentários:

  1. Eu revolto-me mas não esqueço! Não me deixam esquecer! Todos os dias sou confrontada com a "decadência" da vida que pessoas honestas e ingénuas estão a sentir.Por muito que gostasse de o fazer, não consigo esquecer...
    Abracinho

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  2. Pois eu revolto-me e sei muito bem do quê ou melhor, de muitos quês.

    No fim de semana passei por aqui mas estava com uma valente dor de dentes ou melhor, dente, masculino,singular lol e não consegui ler tudo até ao fim, hoje voltei para ler o resto.

    Bjos
    da sobrinha de Lisboa lol

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  3. Maria Teresa,
    Eu também não me esqueço, apesar de tentar muito! E também me revolto!
    Bjs

    Isa,
    Espero que estejas melhor! Eu também me revolto. Chegámos ao limite máximo do tolerável!
    Bjs do Tio :)))

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