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quarta-feira, 9 de julho de 2008

O encontro

Acabamos por combinar encontramo-nos numa Estação de Serviço, perto de Coimbra, versão actual das Estações de Trânsito do Clifford Simac (Clifford D. Simak, Estação de Trânsito (Way Station), 1963). Íamos trocar de personagens e pelo caminho fomos acertando horas. Não queria ser o último a chegar. Melhor, queria ser o primeiro a chegar. Muito atento aos pormenores, não a queria deixar à espera num lugar que conhecia mal. Ainda não havia greve de camiões outra vez, mas era daqueles sítios que nem com gente nem sem gente são agradáveis. Era apenas um ponto de partida, para uma outra viagem...
Felizmente consegui chegar primeiro, como tanto tinha desejado ao longo da tarde.
Nunca tinha reparado que as tardes eram tão grandes na Beira Alta. Finalmente acabou e contando desesperadamente os minutos liguei-lhe. Ainda estava em Pombal. Tudo a correr como o previsto.

Cheguei e tive tempo para estacionar no melhor lugar para a ver chegar. Estava cansado mas não tinha sono. Ela vinha de Lisboa, certamente também cansada. Vi um carro chegar. Reconheci-a, mas estava diferente. Fiquei completamente desperto. Saltei do carro e espero ter aberto a porta antes de sair. Parou e saiu do carro. Não consegui correr como tinha imaginado que me apetecia. Preferi desfrutar esses escassos segundos, para rever todo um tempo que parecia não ter passado. Ela também não correu.
A noite estava a ficar fresca e também senti nela algum frio inicial. A blusa era de manga curta e as calças verdes, justas, de bombazine elástica. Tinha uns quilitos a mais, mas estava bem disposta e divertida. Abraçámo-nos e começámos a falar como se ainda ontem nos tivéssemos visto. Senti que ambos estávamos mais felizes. Fingi que não tinha reparado no peso a mais, mas não resultou.
Disse-me que tinha deixado de fumar. A explicação era desnecessária, porque já tinha percebido. Respondi-lhe que não importava. E era verdade.

Gosto destes reencontros! A distância física tem destas coisas e afinal nunca estivemos tão longe como tinha pensado. Mesmo sozinho nunca se está completamente só, e é bom pensar assim. Tranquiliza saber que há alguém que se lembra de nós, mesmo que seja só virtualmente, ou com a ajuda do Outlook.

Aquela preocupação indecisa sobre o que dizer, depressa se desvaneceu e senti que tudo estava bem. Afinal tudo estava no seu lugar. Despimo-nos das nossas personagens e entramos num outro mundo, paralelo, onde não precisávamos das máscaras habituais. Mais autêntico? Não sei. Vestimos tantas vezes a mesma roupa que acabamos por ficar condicionados pela personagem que nos atribuímos, ou nos atribuíram. Mais agradável é de certeza. Não há nada mais belo do que o riso descontraído duma mulher feliz.

Adoro Carolina Herrera e já o achava extraordinariamente sensual antes do 212 a que, desnecessariamente, deram o nome de sexy …

Ainda bem que há coisas que mesmo mudando ficam na mesma!

sábado, 5 de julho de 2008

A Porta, a Janela e o Puzzle

Estes blogs são como portas que se abrem para outros mundos virtuais, que às vezes se vão realizando. Entenda-se por realizando duas coisas distintas. A primeira delas tornarem-se reais, com o virtual a passar crescentemente para a realidade do dia a dia de cada um. Na segunda vertente, deve entender-se como a realização, concretização de projectos, sonhos e desideratos. O tio hoje está virado para a metalinguística ou terá por meta dizer qualquer coisa?

Eventualmente na maior parte das vezes nada se vai realizando, fica-se no mundo virtual do secondlife e, como alguém tão bem disse, se se está tão bem no virtual, porque aproximá-lo do real? Nesse caso de não realização fica o sonho, o projecto, a ideia, a promessa...
A desconfiança nestas portas às vezes é grande e não é fácil abri-las, menos ainda as que achamos que devíamos abrir, para nos levarem para outras realidades diferentes. Entrar também é sair e, para sair temos de entrar, parafraseando os Genesis da minha geração que, para quem gosta, é sempre bom ouvir de novo. Entrar num mundo diferente é sair da rotina, é procurar aquela chama que às vezes nos falta no dia-a-dia da nossa realidade...

Não pensemos em fugir, antes sim entrar noutra realidade, desde que não seja o planeta Ti-U, que já prometi descrever e em cuja órbita nunca gostei de navegar.
Que fazer para diminuir o risco de abrir a porta? Falar com a porta fechada, por vezes encarnando outras personagens que não os próprios, é o mais habitual. É a idade, a localização, os gostos, etc, etc etc. Outra possibilidade, muitas vezes usada nas casas verdadeiras, é colocar um pequeno óculo, donde se espreita, sendo que a personagem que está no interior, não se deixa ver. Vê-se ser visto. Enfim há quem goste e há quem tenha alguns fetiches com essa situação...
Nas casas antigas havia um postigo, pequenino, onde quem estava do lado de dentro via quem batia à porta. Hábito saudável e justo, que também permitia a quem estava do lado de fora antever, um pouco, o interlocutor. Ambos se sabiam observador e observado. Estes postigos mais não eram do que janelas, para se antever um pouco o que, eventualmente, se poderia seguir.

Há tempos bati a uma destas portas, sólida, de boa madeira e muito bem arranjada. Para minha surpresa abriu-se um desses quadradinhos e pude ver um pouco de quem me via. Para ver usa-se a vista, mas quem está de fora mais que uma parte de um rosto, vê um olhar...
Talvez fosse uma janela que se abria para uma nova perspectiva...

Gostei tanto do que vi que não resisto a construir o resto do puzzle a partir dessa primeira peça. A imaginação prega-nos partidas, mas iria jurar que noutro tempo ou noutro lugar, já tinha tido a possibilidade de ver aquele rosto e aquele olhar já me tinha feito sonhar...

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Do mirc, chateando, até ao avatar

Mais uma viagem introspectiva...Saio de mim, tento ganhar distância, distanciamento para ter frieza na análise. Mas também não quero analisar, interpretar. Julgar também nunca julguei, e este é um princípio que mantenho. Quero apenas aproveitar mais um passeio pelos recantos das recordações, quando me surge uma hiperligação para esse passado...

Conheci-a no mirc. Há quanto tempo terá sido? Imenso. Chateamos um bom bocado, ou um belo bocadinho, como diriam no Algarve. Diria que foi um bocado de tempo belo. A descoberta é sempre bela, quando descobrimos o que queremos descobrir. E é fácil no mundo virtual... As coincidências foram surgindo, naturalmente.

Lembro-me do nosso primeiro encontro. Nervoso. Ela aparentava uma confiança que não tinha. Ficava-lhe bem a saia comprida, num padrão tipo escocês, e a blusa justa em tom pastel. O cinto largo reforçava a cintura estreita. Tinha o cabelo apanhado e nos olhos meigos pareceu-me ver uma ponta de tristeza... Era Inverno. Não resisti ao desejo de remover essa sombra escura de uns olhos bonitos. Dançámos e não nos pareceram músicas lamechas.
Encontrei-a outra vez, passado algum tempo, num liceu do Porto. Lembro-me que estava com uma amiga. Nenhum de nós era dessa escola e nessa rua, passado algum tempo, tive um acidente. A mota foi para a sucata e tive que cancelar um encontro. Fiquei triste.

Encontramo-nos também uma vez no Algarve. Era Verão e foi diferente. Daí ao messenger fui um instante e na vez seguinte encontramo-nos em casa de um amigo que, por coincidência, tinha saído. Também no Porto, fomos visitando outros amigos, que também não estavam.
Passado algum tempo passamos a encontrar-nos em minha casa, que antes não tinha, e ao longo destes anos temo-nos encontrado algumas vezes. Se dissesse, muitas pareceria que achava demasiado. Não é o caso. Sabe sempre a pouco.

O meu avatar de homem livre foi ficando cada vez mais autónomo até que tomou conta de mim. Não é personalidade múltipla, nem esquizofrenia. O avatar subjugou o homem comprometido. O caminho que outros haviam feito para ele, não era o dele. O avatar levou-o a fazer o caminho que seria o dele. Juntaram-se num homem diferente, avatar e autor ou autor e avatar. Decidiram-se chamar-se AA.
Com o passar do tempo o autor/avatar foi-se juntando ao avatar dela, dando lugar a um avatar integrado.

Alguém cantava alto: Socorro, estou apaixonado! Não preciso de cantar nem de dizer nada. Toda a gente vê. Os olhos não mentem. Digo-lhe só a ela, mas baixinho, ao ouvido, enquanto dançamos e trocamos IPs.

Vou escrever-lhe uma carta de amor e enviar por mail. Posso programar o envio para que a receba amanhã, já que hoje nos vamos encontrar outra vez. Assim fica a saber que avatar e autor pensaram nela...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Old Albion

Tudo na mesma. Britannia rules the world, pelo menos assim continuam a pensar e sentir, mas adorei na mesma. O trânsito continua a andar pelo lado errado mas, para compensar, continuam a ter os simpáticos avisos nos passeios. Os cidadãos oriundos do Paquistão e Índia continuam a dominar a hotelaria e os minicabs, ainda há alguns brancos a conduzir autocarros e as moedas continuam a mesma confusão, apesar da simplificação de há já alguns anos (estavam a precisar de outra).

De diferente, pouco: Muitos Espanhóis e nunca pensei ouvir cantar “Que Viva España” em Picadilly Circus, mas é assim (terá sido do campeonato?). Havia espanhóis em todo o lado e os brasileiros começam a invadir o espaço dos paquistaneses. Obras em todo o lado, supostamente para actualizar o sistema de distribuição de água. Parece mais a instalar de novo...

Canary Wharf também surpreendeu e não resisti a beber “a pint “ de t-shirt e calças de ganga onde milhares de cidadãs e cidadãos engravatados se despediam, com uma cerveja, até ao outro dia extra stressante em frente aos monitores dos terminais das salas de mercados ou de outras quaisquer...

Que bom é nada fazer! Para terminar esta experiência só faltava o DLR e fiquei a ver como é o regresso a casa destes executivos. Outros, poucos mas em quantidade que se nota bem, optarão pelos carros topo de gama, mas mesmo topo de gama. Vi alguns Lamborghinis, um TVR (uauh isto é um carro), Bentleys (outro carro) e mesmo um Audi R8 (no comments). Os novos Jaguares XK e XF tmbém estão o máximo. Enfim, por alguma razão é que a TATA Ltd tem a sua sede em Grosvenor Place, juntinho a Hyde park e Picadilly. Queriam melhor? É a Índia que invade, tranquila, pacificamente e no coração do Império. Ninguém se importa porque a marca mantêm-se, os carros talvez até estejam melhores e salvaguardam-se as aparências. Muito Vitoriano e conveniente...Qualquer dia volta a Rover, talvez com sede em Buckingham Palace Road! Desde que não se percam os Lotus 7, por mim tudo bem. Se os chineses e os indianos tomaram conta dessas marcas, é porque alguém deixou...

Outras novidades foram a falta de cestos para o lixo nos interiores das estações, por razões de segurança, veja-se só onde chegou o problema, e os autocarros que dizem ARRIVA ou TRANSDEV, como já muitos dos nossos. Pode ser que assim os nossos fiquem como os deles, pontuais, com lugares sentados e limpos. Queremos os doubledecker a circular em Lisboa e no Porto! Já!

Para terminar a componente turística, um dia na Tower (almoça-se muito bem no “New Armouries”, e assim aproveita-se melhor o tempo. Não pude resistir a ir a Greenwich. O Cutty Sark ainda não está disponível, mas falta pouco. Em 2009 já podemos voltar a vê-lo, ou vê-la no original inglês que muda os navios de sexo e género. Nada a dizer sobre o National Maritime Museum, The Queen's House e, claro The Royal Observatory. Soberbo. Não percam. Aqui fica o link para abrir o apetite: http://www.nmm.ac.uk/

Estar no Observatório, no Meridiano de Greenwich, “The Prime Meridian of the World“ ajuda-nos a compreender melhor aquela questão do “Britannia rules the world”, mas também nos recorda a nossa fantástica epopeia marítima, tudo o que fizemos pela navegação e pela cultura, no passado.

Para terminar o périplo cultural desse dia, ainda fomos jantar ao Planet Hollywood e percebem-se logo as diferenças entre a velha Albion e a cultura do outro lado do atlântico (http://www.planethollywood.com/ também para abrir o apetite)...

Alguém me dizia nesta curta viagem ”nasci no pais errado”. Fiquei triste, porque não é o país que está errado. O que fizeram do nosso país é que foi errado, e a nossa auto-estima está na pior. Nem sequer capitalizamos o que temos de bom!

Há um tipo que diz que devemos dizer Allgarve e outros ficam aborrecidinhos porque um operador truistico chamou ao aeroporto de Faro o Aeroporto de Algarve-Huelva... Está tudo ao contrário e se continuarmos a ser governados por esta cáfila de cretinos e habitantes ineptos do planeta TI-U, pouco nos resta a não ser o passado na memória de cada vez menos...Afinal já tivemos uma princesa portuguesa, que provavelmente fez mais furor que outras actuais, como rainha de Inglaterra e que, entre outras coisas, levou o hábito do chá para Inglaterra. Parece que não foi muito feliz com o Carlos II...Mais uma vez ficámos a perder. No dote íam Tânger, Bombaim e a autorização de navegar nos mares do ultramar, que eram só nossos, como tão bem sintetizou Afonso Lopes Vieira:

Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei:- Pois bem!
Se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
Fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.

Se nas índias flutua essa bandeira inglesa,
Fui eu que t´as cedi num dote de princesa.
E para te ensinar a ser correcto já,
Coloquei-te na mão a xícara de chá”.

Quem poderia dizer melhor?

Este verso foi retirado de: http://www.lusilinha.com/Lusilinha83.htm

Vale a pena ler esse artigo. E ir a Londres, também. Há de tudo, em quantidade, qualidade e também com falta dela...E que dizer da Hotelaria, quando comparada com a nossa? Apetece usar a F word. Mas alguém vai a Londres à procura de Hotéis? Até breve!