quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Saudades das curvas



Estava com imensas saudades destas viagens mas também, e confesso, morria de saudades por aquela que foi uma das minhas grandes paixões de sempre. Viagens são sempre viagens e a companhia é que interessa!
Quantas vezes pensei nas viagens que poderia ter feito e não fiz? Poucas. Viver no passado não faz o meu género, mas as saudades de a ter nas minhas mãos eram imensas. De sair com ela, de me deitar com ela, de a sentir, firme, nos percursos sinuosos da vida levando-a aos limites e ser, também, levado ao limite…De sentir a sua respiração tranquila e, abraçando-a, levá-la a um respirar ofegante, verdadeiro grito de liberdade? Não sei quantas vezes recordei e antecipei esses momentos de grande partilha e intimidade, em que os dois fomos um só.
Separados durante anos por força do destino, voltei a encontra-la este verão. Foi como se de um amor à primeira vista se tratasse, apesar do reencontro ser óbvio e de tudo me ter levado na direcção dela, como se de um destino inexorável se tratasse. Inexplicável este acaso, se é que há mesmo acasos. Terá sido a busca incessante de liberdade que me guiou até ela? Não sei. Sei que estou preso à liberdade, e gosto!
Agora juntos desafiamos rectas, curvas, voamos em pontes e viadutos atravessando rios e estradas e mergulhamos em túneis, de onde saímos sempre a olhar o próximo obstáculo com a expectativa de quem se vai superar, mais uma vez.
Dizem que ela mudou a minha vida, voltei a ser o tipo alegre e bem disposto que sempre fui. Não sei, mas acredito que sim e também sinto que a presença dela dá um resultadão com as miúdas. A minha miúda diz que com ela fico mais sexy, o que é um tremendo elogio. Se estou mais confiante? Não sei, mas dizem que me fica bem, e acredito que seja possível.
Em boa hora me voltei a cruzar com aquela Kawasaki que, na verdade, nunca deixou de ser a minha mota… A minha Kawa!

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O Linho e o Minho





Quem me dera ser tão fino
Como o linho que fiais
Quem me dera tantos beijos
Como vós no linho dais…
Esta noite lá minha aldeia
Já tudo dormia só eu namorava…
Doba, doba, dobadoira doba
Não m’enrices a meada!

A preparar uma ida ao Minho, encontro estas tão simpáticas quadras no site do Clube Escape Livre… Leio mais sobre o tema do Milho, perdão do Linho e do Minho e fico a saber que o linho – que é bom como o milho – afinal existe em três espécies: O galego, o mourisco (para mim esta era a melhor) e o riga nacional, que é o menos frequente. Riga é conhecida também pelo pinho e parece que há falta de pinhos em Portugal… O linho é arrancado pela raiz, ripado, posto de molho – também poderíamos dizer que fica no gelo - a seguir apanha seca, e é depois deitado na eira para ser malhado. Deve ser daqui que vem o aforismo “sol na eira e chuva no nabal”. Reparem que o nabo não é malhado contrariamente ao linho. Já o milho também vai à eira, mas para ser desfolhado. O linho não é desfolhado, mas sim ripado! A nossa agricultura é muito rica em imagens poderosas.
Mas a senda não acaba aqui. Antes de saltar para as calças e camisas, ainda é espadelado, que é a mesma coisa que tirar os tomentos. Também se pode usar a palavra estomentar, mas não é tão vulgar… Os tomentos são a parte fibrosa da coisa, ou seja a estopa. E daí o separar o linho da estopa. Ou será separar o trigo do joio? Em qualquer caso há malha, ou melhor espadela.
E já não vou a Mondim de Basto, nem ao Minho. Nem malhar no linho ou no Minho. Nem desenriçar a meada…. Fico em casa a arranhar, que também é uma forma de malhar, mas fiquei a saber mais sobre o linho e o Minho.

Afinal o linho é bom como o Minho! Saudades vossas…

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Febras e membros



Tenho ouvido frequentemente os maiores disparates gramaticais ditos em público e bastas vezes repetidos. Julgo até sentir, nos seus autores, um certo orgulho na insistência no erro… 

Suponho que arrastados por uma modernidade com toque de acordo ortográfico, aliada a um falso respeito pelo género feminino, juntos têm levado muita gente ao todas. Todas não é o nome de um bar, nem está errado e até é agradável. A frase ”todas as mulheres que me lêem são inteligentes, para além de giras”. Está correcta, e é verdadeira, certamente. A reserva do certamente deve-se apenas ao facto de não ter o prazer de conhecer todas as minhas leitoras… 

Vá lá meninos também gosto muito de vos ler e fico muito feliz por ver que também gostam do meu cantinho. Aliás todos os meus leitores são pessoas inteligentes….

O disparate começa com o uso de todas e todos na mesma frase. Muito bom dia para todas e todos, por exemplo. Ou, na versão mais soft: As presentes e os presentes. Mais soft porque pode entender-se que as presentes vão receber um presente, cada uma, claro. Ainda não chegámos ao desvario da “presidenta”, ou da “estudanta”, mas andamos perto quando dizemos as alunas e os alunos que se queiram inscrever para exame…

Não sei porquê mas sinto haver uma correlação entre as pessoas que usam este tipo de linguagem, pretensamente inclusiva, e os adoptantes da inominável interrupção voluntária do português correcto, também conhecido pela sigla IVPC, ou aborto ortográfico. O valor do p level é capaz de ser elevado nesta relação, mas acredito que será estatisticamente significativa. 

Como sempre, tento ser pedagógico, pelo que deixo algumas sugestões aos apoiantes desta abordagem. Sei que são muito criativos e criativas (sim, felizmente as Mulheres, não caem tanto nesta pseudo atitude inclusiva), aqui vão algumas, para vosso deleite. Usem-nas, se assim o desejarem.

Fêveras e Febras: Em vez de febras ao almoço, peçam febros, ou de forma mais sofisticada, podem usar os Fêveros. Se quiserem ser mesmo preciosistas (mariquinhas, à séria) peçam febros de porco e febras de vaca ou, na versão elitista, Fêveros de Porco e Fêveras de Vaca.

Os membros e as membras. Usado em associações, clubes de futebol (exclusivamente) ou noutros locais onde haja vínculos associativos: Caras membras e membros, por exemplo. Também pode ser usado num contexto mais intimista, erótico, divertido (sim o sexo também pode ser divertido e provocar gargalhadas). Fiz uma função aleatória para escolher qual dos géneros escolheria primeiro, se o membro ou a membra. Saiu o membro: Hirto e duro, o meu membro deseja ardentemente a tua membra, húmida e sequiosa.

Enfim, meus caros, há nesta questão um sem número de utilizações e de utilidades que podem passar despercebidas numa abordagem ligeira. E temos que ir bem ao fundo, um pouco como Portugal, mas não tanto como a Grécia, para ficar a conhecer bem as possibilidades quase ilimitadas da nossa ortografia, depois de aberta a caixa de Pandora da Interrupção Voluntária do Português Correcto, decretada pelo parlamento no último reinado de Socretinius, o Primeiro. Ou será primeira, uma vez que foi a terceira figura do estado? Bem ele nomeou a segunda e foi um grande figurão, por isso o género é o masculino, certamente.

Post Scriptum: Ao reler, muito rapidamente, este texto antes de o submeter à vossa muito estimada apreciação, reparo que usei a palavra pseudo quase duas vezes. Queria apenas deixar bem claro que é uma mera coincidência, e não uma referência à minha estimada amiga que usa esse nome para se identificar.

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