domingo, 5 de abril de 2015

Lisboa, by Fernando Pessoa



Ah como incerta na noite quente,
De uma longínqua tasca vizinha
Certa ária antiga, subitamente,
Me faz saudades do que as não tinha.

A ária é antiga? É-o a guitarra.
Da ária mesma não sei, não sei.
Sinto a dor-sangue, não vejo a garra.
Não choro, e sinto que já chorei.

Qual o passado que me tiraram?
Nem meu nem de outro, é só passado:
Todas as coisas que já morreram
A mim e a todos, no mundo andado.

É o tempo, o tempo que leva a vida
Que chora e choro na ária triste.
É a mágoa, a queixa mal-definida
De quando existe, só porque existe.



Tive o gosto de dizer este poema no último dia mundial da poesia. E soube-me tão bem!
 


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Pequena nota a propósito da ortografia e da minha Pátria



Quando escrevi o manifesto do Podemos e Phodemos, recordei o Livro do Desassossego…

E aqui fica esta grande verdade do enorme Fernando Pessoa, pela voz do Bernardo Marques:

Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Depois deste texto magistral não é preciso acrescentar nada, ou será?

Nota: Este extracto da “A minha Pátria é a Língua Portuguesa” foi retirado daqui:.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Podemos e Phodemos



Na Portugalândia não há responsável de partido político que não se quisesse colar ao Transpiras, depois da vitória em terras Helénicas. A Helláda mostrou que afinal não é tão gelada como parecia, e a vitória do amigo Transpiras ainda aqueceu mais a coisa. Agora, está a arrefecer um bocadinho mas, na altura, não houve bicho careto que não  se quisesse colar ao rapaz.

Mesmo aqui ao lado, na terra do Júlio, outro Iglésias também está a dar nas vistas com o Podemos. Se ganhar, não tenho dúvidas que a rapaziada do costume se vai colar ao movimento.

Pois a minha sugestão é criar também um movimento na Portugalândia. Mas que nome? Nada mais fácil. Sou um acérrimo anti-acordês, que não liga às críticas bacocas dos vendidos que acham que: “ai não usas o acordo, o melhor é escrever como antes da reforma de 1911”. Enfim, nem comento, mas deu-me a ideia para o nome do movimento: Phodemos! O h não se lê, mas podemos sempre lê-lo, se nos apetecer, sempre que quisermos! E querer é Poder, como todos sabemos…

Melhor, melhor é juntar as duas grafias: Se Querer é Poder, por que razão Querer, não há-de ser, também, Phoder? Nem sempre Phodemos quando queremos, mas se Podemos, porque não Phodemos?

Enfim, depois desta pequena introdução sobre a temática do Poder e do Phoder, fica mais clara a razão do nome do movimento, já que se pretende que seja inclusivo, não discriminatório: Podemos e Phodemos!

sábado, 28 de março de 2015

O milagre dos euros



Ia caminhando, discretamente, com os cofres cheios, no seu passeio semanal da terra dos pobres até à dos ricos e regresso. Supostamente tirava dinheiro aos ricos, que habitavam na terra dos pobres, para dar aos pobres, que também moravam na mesma terra. As más-línguas diziam que, na realidade, tirava dinheiro aos pobres para dar aos ricos do reino dos pobres, mas essa é outra história.

Um dia, o rei daquele povo, desconfiado com tantas idas à terra dos ricos para pedir dinheiro, já que o tirava aos ricos do país pobre não chegava para as necessidades do reino, perguntou-lhe o que levava naqueles cofres tão pesados.

A rainha que já era conhecida como santa luís, pelos milagres da multiplicação que teve que fazer depois do rei mago, gaspar dois, ter abandonado o reino, ficou atrapalhada. Na verdade talvez os cofres não estivessem tão cheios como dizia mas, se os tivesse muito cheios o rei poderia ficar incomodado, já que os protestos dos pobres do reino dos pobres se avolumavam, como também se avolumava o número de pobres no reino…

Sem hipótese de outra solução, tentou a fuga para a frente, ao bom estilo socretino – que, como sabemos, acabou no Alto Alentejo, num convento especial. Assim, calmamente, disse ao rei: Meu senhor, estes cofres estão vazios, vou agora à Germânia, ver se consigo arrecadar uns milhões. Vejo um horizonte 20 cheio de dinheiro, nessas promissoras terras dos ricos e quero trazer os cofres cheios, para o nosso povo que passa fome.

O rei, desconfiado, pois já tinha ouvido o rumor de que os cofres estariam cheios, pediu-lhe que os abrisse. Sem outra possibilidade, a rainha luís, olhou em direcção ao leste e abriu-os mesmo. Para surpresa dela, os cofres estavam mesmo vazios! Em segredo pediu-lhe desculpa pela desconfiança e continuou o seu caminho. A rainha luís, desde essa altura, ficou conhecida como a santa do milagre dos euros.

E os cofres? Estavam mesmo vazios! Mais tarde veio-se a descobrir que tinham um buraco no fundo. Por mais que tirasse aos ricos e aos pobres o dinheiro nunca chegava para as necessidades do reino. Por isso, em verdade vos digo: Mais vale um cofre sem buracos que uma rainha milagreira e um rei desconfiado.

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