sexta-feira, 6 de março de 2015

Ficar enrolado, despir e cair na cama



Esta sequência nem sempre surge nesta ordem. Este é um caso onde a propriedade comutativa se pode aplicar, sem qualquer receio.

Podemos cair na cama e apenas depois ficarmos enrolados, sem haver necessidade de nos despirmos. Também é verdade que podemos cair na cama sem nos enrolarmos.

De certeza que todos conhecemos histórias deste género, de pessoas que se enrolam com a colega, com a vizinha, com o amigo, com a amiga da mulher e assim por diante num número quase infinito – e nem precisa de ser um inteiro – de combinações possíveis. Se estivesse a falar com matemáticos diria que estamos a falar de combinações ou arranjos de n, dois a dois, três a três, ou até onde a nossa imaginação nos – e vos levar.

Não sei se enrolar é um verbo transitivo, se pede complemento directo, o que sei é para ficar enrolado até se pode estar num quarto de hotel, querer tirar os sapatos, enquanto vemos a vista fantástica da baía de Cascais, entrar em desequilíbrio, ficar enrolado com a cortina e cair na cama. Notem que não é com a Corina, mas sim com a cortina. Para piorar tudo, a mãe sanefa, furiosa por ver a filha arrastada para a cama, caiu-me em cima, com um estrondo que deve ter sido ouvido na recepção!
Imaginem-me agora a explicar ao recepcionista: Sabe, ao abrir o black out, caiu-me a sanefa com as cortinas em cima…
- Não se magoou?
- Não, não foi nada, respondi com ar descontraído, enquanto apanhava os pedaços do ego espalhados pelo chão.

Moral da história: Evitem despir-se perto de cortinas e cortinados, que as mães são muito zelosas das suas filhas e filhos e podem cair-vos em cima.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Talvez não vá dormir a casa.


Esta frase, sem qualquer acentuação, despertou-me da sonolência habitual do final de tarde de um dia stressante, enquanto tentava repousar por uns minutos num comboio. São aqueles minutos que valem por horas e que aproveito algumas vezes. Vi o mar calmo e tranquilo. Podia ser no Estoril ou em Espinho.
O tom de voz não era ameaçador, enigmático ou sequer zangado. Se houvesse algum sentimento naquela calma, seria tristeza. Uma tristeza calma, mas profunda.
Um leitor de MP4 envia-lhe um kuduro progressivo que eu próprio ouvia. Ligeiramente, de forma discreta mas constante, abanava a cabeça ao ritmo que eu também sentia.
Um telemóvel na mão e outro no colo, ao lado do MP4, iam debitando sms que iam sendo respondidos. Um deles tocou. Deve ter vibrado porque não o ouvi, talvez entretido pelo ritmo contagiante do kuduro, ou embalado pelo mar da baía, talvez de Cascais, talvez de Cadiz...
Não queria ouvir, mas não podia deixar de o fazer. A menos que me levantasse e mudasse de lugar o que também não me apetecia nada fazer...
Olhei-a de relance, mais uma vez. Um rosto bonito, tranquilo, uns olhos que, com dificuldade, tentavam ser inexpressivos. Teria vinte anos? Não sou nada bom a adivinhar idades, mas de certeza que não teria mais de vinte e cinco.
Disse que tinha uma notícia que a tinha deixado de rastos. E percebia-se. A calma era de tristeza e a mágoa era profunda. Não era uma ferida ligeira, feita de raspão, sem consequências.
Não queria acreditar no que ouvia, nem queria ouvir o que dizia. Felizmente o comboio lá ia anunciando as estações, e o barulho feito por um grupo de estudantes permitia não ouvir, apesar de não dar para isolar completamente.
De repente, sem qualquer aviso prévio a carruagem ficou gelada. Acho que fiquei paralisado, talvez seja assim que se morre quando se fica parado no gelo. Sem vontade de se mexer, mesmo sabendo que será o fim. Fiquei assim e mesmo olhando para as letras vermelhas da sinalização do comboio, que teimavam em indicar 22º no interior, não acreditava.
Percebi que estava triste porque o amor da sua vida, que recentemente a tinha deixado, já tinha novo amor. Tinha sido abandonada mas, pior que isso, trocada  por outra. Fiquei triste. Não acreditava que era o fim do mundo, mas pareceu-me que sentia que não teria energias para recomeçar...Que poderei fazer, pensei, sem grande esperança. Uma palavra simpática, um sorriso de ocasião? Perguntar-lhe se o kuduro era o que tinha pensado? Provavelmente não iria fazer nada e só seria mal interpretado.
Percebi depois que o amor perdido era de outra mulher. Era uma história de mulheres, entre mulheres. E aí nunca saberia o que fazer ou dizer…
Quando, depois da conversa agarrou no outro telefone e comunicou a decisão de, talvez não ir dormir a casa, fiquei com a certeza que qualquer boa intenção seria trucidada, mal interpretada e inconveniente. O que não me apetecia nada.
Nunca estamos devidamente preparados para todas as situações. Às vezes, ainda bem que é assim. Sobra algum espaço para o improviso, para a originalidade, para o arrebatamento da paixão. Outras vezes não. Não me sobrou nada. Não por ser mulher, ou homem. O ser mulher dificultaria ainda mais qualquer coisa que tentasse. Foi pela determinação calma. Foi isso que me deixou triste. Um pouco como a inelutável calma e serenidade das marés, antes das tempestades...
As probabilidades de a rever são infinitesimais. Desejo-lhe felicidades.
Que se encontre e encontre a felicidade tranquila que a calma que ostenta parece pretender.
E que possa um dia descobrir que não somos todos iguais... E que vale a pena tentar de novo, não talvez, mas sempre!

Siga o Tio pelo e-milio