quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Talvez não vá dormir a casa.
Esta frase, sem qualquer acentuação, despertou-me da sonolência habitual do final de tarde de um dia stressante, enquanto tentava repousar por uns minutos num comboio. São aqueles minutos que valem por horas e que aproveito algumas vezes. Vi o mar calmo e tranquilo. Podia ser no Estoril ou em Espinho.
O tom de voz não era ameaçador, enigmático ou sequer
zangado. Se houvesse algum sentimento naquela calma, seria tristeza. Uma
tristeza calma, mas profunda.
Um leitor de MP4 envia-lhe um kuduro progressivo que eu
próprio ouvia. Ligeiramente, de forma discreta mas constante, abanava a cabeça
ao ritmo que eu também sentia.
Um telemóvel na mão e outro no colo, ao lado do MP4,
iam debitando sms que iam sendo respondidos. Um deles tocou. Deve ter vibrado
porque não o ouvi, talvez entretido pelo ritmo contagiante do kuduro, ou
embalado pelo mar da baía, talvez de Cascais, talvez de Cadiz...
Não queria ouvir, mas não podia deixar de o fazer. A
menos que me levantasse e mudasse de lugar o que também não me apetecia nada
fazer...
Olhei-a de relance, mais uma vez. Um rosto bonito,
tranquilo, uns olhos que, com dificuldade, tentavam ser inexpressivos. Teria
vinte anos? Não sou nada bom a adivinhar idades, mas de certeza que não teria
mais de vinte e cinco.
Disse que tinha uma notícia que a tinha deixado de
rastos. E percebia-se. A calma era de tristeza e a mágoa era profunda. Não era
uma ferida ligeira, feita de raspão, sem consequências.
Não queria acreditar no que ouvia, nem queria ouvir o
que dizia. Felizmente o comboio lá ia anunciando as estações, e o barulho feito
por um grupo de estudantes permitia não ouvir, apesar de não dar para isolar
completamente.
De repente, sem qualquer aviso prévio a carruagem ficou
gelada. Acho que fiquei paralisado, talvez seja assim que se morre quando se
fica parado no gelo. Sem vontade de se mexer, mesmo sabendo que será o fim.
Fiquei assim e mesmo olhando para as letras vermelhas da sinalização do
comboio, que teimavam em indicar 22º no interior, não acreditava.
Percebi que estava triste porque o amor da sua vida,
que recentemente a tinha deixado, já tinha novo amor. Tinha sido abandonada mas,
pior que isso, trocada por outra. Fiquei
triste. Não acreditava que era o fim do mundo, mas pareceu-me que sentia que
não teria energias para recomeçar...Que poderei fazer, pensei, sem grande
esperança. Uma palavra simpática, um sorriso de ocasião? Perguntar-lhe se o
kuduro era o que tinha pensado? Provavelmente não iria fazer nada e só seria
mal interpretado.
Percebi depois que o amor perdido era de outra mulher.
Era uma história de mulheres, entre mulheres. E aí nunca saberia o que fazer ou
dizer…
Quando, depois da conversa agarrou no outro telefone e
comunicou a decisão de, talvez não ir dormir a casa, fiquei com a certeza que
qualquer boa intenção seria trucidada, mal interpretada e inconveniente. O que
não me apetecia nada.
Nunca estamos devidamente preparados para todas as
situações. Às vezes, ainda bem que é assim. Sobra algum espaço para o
improviso, para a originalidade, para o arrebatamento da paixão. Outras vezes
não. Não me sobrou nada. Não por ser mulher, ou homem. O ser mulher
dificultaria ainda mais qualquer coisa que tentasse. Foi pela determinação
calma. Foi isso que me deixou triste. Um pouco como a inelutável calma e
serenidade das marés, antes das tempestades...
As probabilidades de a rever são infinitesimais.
Desejo-lhe felicidades.
Que se encontre e encontre a felicidade tranquila que a
calma que ostenta parece pretender.
E que possa um dia descobrir que não somos todos iguais...
E que vale a pena tentar de novo, não talvez, mas sempre!
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Votas e Votos para 2015
Como habitualmente, aqui venho desejar-vos muitas e boas festas
em 2015.
Influenciado por esta tendência, de origem new-socrática
certamente, de se dirigirem a todas e a todos, como se todos não incluísse
todas, aqui ficam as minhas votas e os meus votos para a Ana Nova, para o Ano
Novo e para todas as Anas que não sendo novas, também não são velhas, porque
nunca o serão. Este é um desejo escrito na forma new-socrática, como repararam:
Que as novas e os novos nunca fiquem velhos, mas cresçam em sabedoria e
experiência.
E para todas e todos que não sendo Anas, nem Anos, desejo também
Felicidade em palettes, charters, ou noutra qualquer unidade de medida que
queiram. Pode ser alqueires de Felicidades!
Para as habitantas e habitantes de Évora, que têm sido tão
visitados desde final de Novembro, desejo em especial, que tantas visitas não
resultem numa nova taxa para os munícipes dessa simpática cidade. Desejo que
conservem esse novo atractivo urbano durante bastante tempo, para que todas as
portuguesas e portugueses que não têm mais nada que fazer a não ser window
shopping, possa experimentar o jail shopping, descobrindo que se pode combinar voyeurismo
e turismo, num novo segmento emergente, o voytur.
Para os cientistas que estão a preparar a expedição à fossa
das Marianas, onde se encontra o processo dos submarinos, desejo que não se
percam no Pacífico, nem se deixem perder por fossas desconhecidas, nem que
tenham que partir umas fuças, enquanto procuram as fossas.
A todos vós, queridas e queridos amigos que aqui me dão o gosto
de vos receber, desejo um ano sem tubarões nem robalos ocultos, mas com muitos
salmonetes, sardinhas, litões, cações e outros peixes acabados em ões, como
limões, mangas, papaias e peras abacates. E nozes, que nunca fiquemos sózes,
claro!
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Submarinos ao fundo e aviões no céu, a nova batalha aero-naval
Nem os comboios se salvam nesta nova batalha naval em 3D. As
dimensões não são o comprimento, largura e altura, mas sim o mar, o ar e a terra,
onde se digladiam adversários fantásticos que nos intervalos em off, como nos
melhores jogos da antiga batalha naval, tomam o seu cafézinho e pastel de Belém
tranquilamente. Pode ser na Benard, no Magestic, ou noutro qualquer local
emblemático, mas o mais habitual é mesmo nos corredores da grande casa da dita
democracia…
Com o mesmo à-vontade com que disparávamos os nossos tiros
para o papel quadriculado do colega da outra fila de carteiras, os nossos
sindicatólogos, trabalhatólogos, politólogos e outos logos, de pouco
conhecimento e muita lábia e ciência de língua (tenho dúvidas que algumas sindicatólogas
e sindicatólogos saibam fazer outras coisas com a língua), debitam atoardas
para as câmaras dos vários canais, provocando o caos que todos vemos.
A cereja no topo do bolo, foi mesmo a dos aviões. À semelhança
do que aconteceu no passado, greve marcada, milhões de euros de prejuízos e,
depois de terem estragado as férias e os negócios a muita gente – será por isso
que Alberto João diz que se vai demitir no dia 12? – a greve é cancelada…Os
aviões andaram vazios, a rapaziada voou feliz, os portugueses pagaram, mais uma
vez a factura e já está! Este ano a variante foi a requisição civil, mas o
resultado é o mesmo.
Nos comboios, não houve greve. Não circularam porque a greve
era da REFER, uma invenção de algum governantólogo que decidiu separar o que era inseparável,
como já aqui referi. Assim conseguiram separar os carris das linhas do caminho-de-ferro,
dos comboios, como que separa carros de linhas das linhas, depois de gastas…
Para completar a trilogia, a outra notícia da semana foi o afundamento
dos processos dos submarinos (os de quatro canos). Como se esperava,
infelizmente! Parece que tão cedo não vêm à superfície. O Tio tem no entanto a
secreta esperança, e partilho-a convosco, que esta questão do Banco Que Por Dentro
Não Era Tão Bom Como Parecia Por Fora e Foi Dividido Em Dois, traga à tona mais
umas folhas do Vergonhaço, o célebre livro dos feitos rouboléticos dos
governantes portugueses…Não chegavam dez cantos para contar as histórias mirabolantes
dos nossos dias! Esta não é a ditosa Pátria minha amada, terá dito o alegado
autor do mítico livro.
O Tio, como plagiólogo descarado e descaradólogo, diria:
"Esta é desditosa Patria que eu amei,
de Céu agora negro e onde
eu sem medo
incauto, inocente e despudorado regressei,
encontrando-a escondida em denso arvoredo.
Acabe eu já, se ao tentar libertá-la errei
Esta que foi Lusitânia é agora arremedo
de Luso, de Mercúrio ou de Hermes antigo.
Os primos, amigos e adversários são, ou parece, companheiros,
e nela a roubar são agora os primeiros."
Como reconheceram, está é uma adaptação Tiológica do famoso
trecho do canto III, dos Lusíadas. Parece que ainda se lê qualquer coisa dele
nas nossas escolas.
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