terça-feira, 21 de junho de 2011

O voto pode ser nobre. Pode mesmo.

Vejo num monitor, atrás de uma jarra com uma flor murcha, que está a em curso a segunda volta da votação para eleger o presidente da Assembleia da República, a segunda figura na hierarquia do estado.

Respondo a mais uns emails na sala de espera que a CP baptizou com o bonito nome de lounge, onde entre uma série de facilidades nos facultam o acesso à Internet. Não tenho tempo para confirmar o que vejo, mas sinto que as flores na jarra estão mesmo murchas. Sem som, vejo uma data de gente a ser entrevistada. Outras imagens mostram alguém a transportar o que parece ser uma urna de voto.

Minutos mais tarde vejo no dito oráculo que Fernando Nobre não conseguiu ser eleito na segunda volta.

Não consigo evitar um gesto de alívio, mais ainda quando vejo que só teve 105 votos e precisava de 108…

Pensei no que aqui escrevi sobre Nobre e sobre o valor das iniciativas de cidadãos, que continuo a considerar como extraordinariamente válidas. Enquanto não conseguirmos acabar com a ditadura dos partidos e a com a “partidarização” da sociedade, não conseguiremos evoluir para uma sociedade mais participativa e mais rica. Talvez com os círculos uninominais se conseguisse alguma coisa nesse sentido. Volto a pensar em Nobre, e nos mails que me enviaram com os órgãos sociais da AMI…Revejo a minha surpresa e desencanto, e revejo este processo e o gosto, deplorável, de se candidatarem a cargos não candidatáveis. Como exemplo maior o de se candidatarem a primeiro-ministro. Haverá algumas eleições para primeiro-ministro, ou é o Presidente da República, esse sim eleito por sufrágio directo e universal, que chama o partido mais votado para que este indique um nome?

Quando Nobre se candidatou a Presidente da Assembleia da República, vez o mesmo, ou ainda pior, porque este presidente é eleito pelos seus pares e não por sufrágio directo do povo português… O score de Nobre em Lisboa, foi inferior à média nacional do partido que o elegeu. Só por esta razão e pelos engulhos que causou. Nobre se tivesse bom senso não se deveria ter apresentado como candidato. Seria mais uma cambalhota, mais um “diz que disse mas não disse”, ao melhor do que nos tem habituado, mas teria permitido sair que de pé desta situação e com a cabeça levantada… Assim saiu derrotado, e com a humilhação de ver que Assunção Esteves vai arrecadar também os votos do PS, coisa que ele não conseguiu, nem com o apoio de António Costa…

E assim escusou muita gente de engolir um sapo, Passos Coelho pode mostrar-se magnânime, Seguro, liberal e Nobre ficou com certeza do seu peso real…

É caso para se dizer, que afinal o voto é nobre…ou pelo menos soberano.

sábado, 18 de junho de 2011

Fumo branco nos nuevos ministérios

A minha sugestão não foi aceite. Modéstia à parte era um governo mais cool, mas enfim, há que dar um ar sóbrio à governação. E afinal o governo caiu mesmo, apesar das cambalhotas e outros números de circo do passado recente. Já não há vida para além do deficit, frase histórica, de um reformado rico, que marcou uma fase da governação e fechou um ciclo curto para se abrir um outro buraco, a experiência socretina. E agora temos que ressuscitar…

Lembro-me do pulinho de surpresa de um ministro do último governo antes dessa traumática experiência socretina (uff, como é difícil fazer graça depois de 16 horas de trabalho…). Esse pulinho com cara de surpresa e segredinhos para o lado foi repetido incansavelmente pelos telejornais. Mais até do que um anterior desmaio do Chefe Cara de Pau, índio que nunca se engana, num outro qualquer governo (acho que a minha TV ainda era a preto e branco, antes da fase cinzenta que se adivinha e da cor de rosa actual).

Se o Território surpreender a nova Ministra da Agricultura Mar e Território, sempre será mais agradável vermos a surpresa e imaginar que segredinhos dirá ao colega do lado…

Desejo que o novo governo seja mais ponderado e realista, sem gastar 23 milhões de euros em seminários e exposições de propaganda a ele próprio, mas espero que a eficiência do ex director geral dos impostos, e ex administrador de uma empresa privada de saúde, não se traduza em mais cheques saúde que todos pagamos e só alguns recebem… O sistema aparentemente perfeito para todos, menos para quem os tem pagar, ou seja, nós.

Como dizem todos os beneficiários do SMS que recebem SNS para as consultas: A esperança é a última a morrer. Na saúde, às vezes morre-se antes da esperança acabar… E por falar em saúde e médicos, espero que seja possível resolver o problema da saúde, sem pedir ajuda à AMIga…

SMS e SNS são acrónimos, não sinónimos…

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Everything but the kitchen sink

Não sabia como tudo tinha começado. Deu voltas à cabeça e nada lhe ocorria como a verdadeira origem da situação actual, que nada fazia antever seis meses atrás. Lembrava-se vagamente de pequenas coisas, como a história da pasta de dentes. Era preciso fazer aquele estardalhaço todo por causa da pasta de dentes? A sua tinha acabado e resolveu usar a dela, mas deixou o tubo com as marcas de ter sido apertado no meio e não na extremidade… Depois foi o Nestum no frigorífico. Distraiu-se e trocou os cereais com o pacote de leite… Em vez de colocar o pacote de leite no frigorífico colocou-o no armário e os cereais ficaram no frigorífico. Será que merecia tanta gritaria?

Estes dois últimos nadas trouxeram ao de cima histórias já velhas, como a roupa suja no chão, a toalha por endireitar e claro a inevitável história da tampa da retrete para cima…Coisas que ele nunca tinha compreendido. Poderia até perceber que ela se atirasse ao ar por ele deixar a banheira cheia de cabelos, o que nunca aconteceu, como também nunca aconteceu deixar o saco que habitualmente levava para o ginásio com as coisas lá dentro durante o fim-de-semana…Pensava como essas pequenas coisas a aborreciam agora, enquanto no passado, no seu apartamento nada importava. Agora que se tinha mudado para casa dela, tudo tinha passado a ter uma importância desmesurada.

Pensava no agradável que tinham sido estes dois anos que tinham vivido juntos, apesar dos grandes pedaços de vida que tinham ainda em separado, fundamentais para o equilíbrio de ambos e como tudo tinha acabado tão depressa.

Ele era muito cuidadoso nos mais pequenos detalhes e nas datas, nunca se esquecia de nada. Mais do que as prendas, era super atento aquelas pequenas coisas que fazem toda a diferença…

E logo na única vez que se esqueceu do telemóvel no carro dela, tinha que chegar aquela chamada aparentemente insuspeita, seguida do sms indiscreto…Bolas é preciso ter galo pensou.

Entretanto lá chegou a casa sem saber bem como a ia enfrentar depois do telefonema lá para o escritório…E para piorar a situação não pode sair logo. Não podia deixar aqueles clientes à espera e muito menos cancelar a reunião e o almoço. E a tarde completamente cheia e sem lhe poder falar! Parecia que não tinha interesse em falar com ela, mas claro que tinha. E já eram 8h30 da noite, quarta-feira, de certeza que ia apanhar o camião da recolha do lixo a bloquear a rua… Só faltava mais esta! E quem teria sido o imbecil que deixou aqueles sacos enormes junto ao contentor? Palermas de vizinhos, também já estava farto deles, não tinham o menor respeito pelos outros!

Lá conseguiu estacionar enquanto os tipos da recolha de lixo levavam os tais sacos enormes que lhe tinham chamado a atenção. Entrou em casa, dirigiu-se à sala e achou qualquer coisa de estranho, não reparou nem o quê, foi ao quarto e nada. Pareceu-lhe tudo estranhamente arrumado, excepto uma embalagem de sacos de lixo, tamanho industrial em cima da mesa-de-cabeceira. A meticulosa arrumação levou-o a abrir a porta do roupeiro. Completamente vazio!

Abriu a gaveta do móvel onde tinha algumas das suas camisas. Nada. Sem saber no que pensar correu para a sala. Os seus preciosos CDs e Banda Desenhada tinham desaparecido. Até os do Milo Manara que tanto gostavam de ler em conjunto… Voltou ao quarto e viu que no remanescente da embalagem de sacos do lixo fazia de pisa papéis para uma mensagem, simples e escrita à pressa. Guess were is everything that reminds me of you… Really everything, but the kitchen sink, were you should drown!



Este post, mais do que uma resposta ao desafio da Eva, é uma homenagem ao seu Blog e ao que julgo ser a intenção da autora! ( What I sink it his, em Macarronic English…). E claro voltei ao titulo sugerido no primeiro post do blog. Tio é Tio não muda, mesmo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Semiótica da Gastronomia Portuguesa. Significantes e sabores.

Parece lógico, nesta sequência alucinante de textos e textículos (não é original meu) sobre a gastronomia, arrastado pela miscelânea de ingredientes e sabores, que chegasse ao fundo da questão, à origem do signo, às relações entre as formas e os conteúdos.

Não deixa de ser significativo, e atiro outro signo com diferentes significados, que estas questões surjam, não por estar rodeado de tachos, mas sim por estar com as mãos na massa, a combinar doidamente ingredientes com o objectivo de conseguir o melhor resultado com ingredientes estragados…

O paralelismo entre os signos, conjuntos de significante e significado e a governação fundamentada na astrologia, quer seja no estado quer seja nas empresas (ou seja, cozinhando com gás de cidade ou a lenha) é mais um sinal do nosso destino, que não está nas estrelas…Nem temos uma estrela para nos orientar! Pelo contrário, fico apreensivo, com o buraco negro, conhecendo o seu poder de atracção e o resultado fatal da mesma…

Do inferno para o céu, voltemos à cozinha. Os ingredientes faltam: As massas, o arroz, o milho, os bagos, não abundam. Escasseiam, e até o caroço da fruta é difícil de se obter… Ficamos limitados nos acompanhamentos e nos temperos!

Faltam os tomates, os buchos são duros e os fígados maus. Sem estas matérias-primas, como rechear os perus, frangos, e até os coelhos? O azeite foi substituído por óleo vegetal, não é tão bom, mas vai fazendo girar as engrenagens…E que dizer da falta de gravetos para acender o lume? Cozinhamos a frio? Poupamos energia…

Os sapos foram todos comidos, só falta a rã gorda, que se mostra de vez em quando.

Resta-nos a cebola, que já nos pôs a chorar…Espero que não aparecem mais nabos, porque já não sei o que fazer com eles!

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