sexta-feira, 10 de junho de 2011

Facto ou fato?

Até agora sempre me tenho manifestado contra o acordo ortográfico. Até de forma activa, subscrevendo a causa no Facebook. E continuei quando percebi, como todos os outros subscritores, que não valiam nada as mais de 100.000 assinaturas digitais, porque a nossa sociedade digital e desmaterialização dos actos é de cartão canelado. Tem ar no interior e por fora, papel de embrulho. Iniciativas de cidadãos só em papel, que muitas vezes tem a função do habitualmente designado por higiénico…

Hoje encontrei outra vantagem no dito cujo, e que vem da ablação da letra “c” na palavra facto. Uso esta palavra – ablação – propositadamente, porque até hoje, me parecia uma violência que facto e fato se escrevessem da mesma maneira.

Hoje mudei de opinião. Na expressão “Facto Político” a palavra “Facto” deveria escrever-se sem “c”. Apenas nesta expressão. Os outros factos continuariam a ser naturalmente escritos com “c”.

A explicação para esta mudança de atitude é simples. Os políticos para majorar o tempo de antena, para se aguentarem na ribalta, para serem mais vezes citados nas redes sociais, na imprensa escrita enfim, para sobreviver como políticos, precisam de criar factos políticos. Os últimos governos foram pródigos em exemplos de factos políticos, o último deles – o famoso PEC 4 mas LEV 3, vai ficar na história da política portuguesa.

Pois bem, se por um lado precisam de factos políticos, por outro lado estão sempre a mudar de fato. O que me interessa agora é o sentido figurado, a mudança de papel para manter o estatuto. É o tipo que é antimilitarista, talvez até objector de consciência que vai para Ministro da Defesa, o outro que nunca trabalhou na vida (aplica-se a quase todos) que vai para Ministro do Trabalho, o que nunca entrou numa sala de aulas que vai para a Educação. Enfim, até seriam sustentáveis estas situações, mas o que dizer daquele que conhece o Algarve das férias na Balaia e é candidato pelo distrito de Faro? Ou do outro que ouviu falar do Arcebispo de Braga e se candidata por Braga? Ou do conhece a lenda do D. Fuas Roupinho e se candidata pela Nazaré? E quando nas eleições seguintes, o que se candidatou ao Parlamento Europeu aparece como candidato à Câmara de Faro? Ou de Braga? E a seguir aparece como cabeça de lista para a Assembleia da República por outro distrito qualquer? Não acredito que seja fruto da polivalência política. É do fato! Tira um, veste outro e subvertendo o dito popular, como tantas vezes os políticos fazem à vontade do povo: O fato faz o monge, neste caso o político! O facto faz o político, fato e facto são uma só realidade e uma só palavra. Por isso, no meu fato azul-escuro, vou passar a escrever fato político. E assim, ao usar o acordo, também mostro o que sinto pela classe, em geral.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Formosa e não segura

Leonor pela verdura vai formosa e não segura… De acordo com o poema de Camões uma Leonor giraça ia para a fonte, numa zona de risco.

Ora com os sucessivos acordos ortográficos desde o séc XVI, o original talvez fosse Lianor, também cantada em fado pela Amália Rodrigues. Fado é nossa sina, o que se encaixa na perfeição do nosso jardim, cheio de ervas daninhas, mas à beira bar plantado. O b é de propósito. Continuando nesta viagem até às origens, também tenho a ideia que em vez de formosa, seria fermosa. Mais parecido com feromonas, sempre necessárias neste jogo de atracção, onda a forma é determinante para o sucesso. O conteúdo nem tanto, infelizmente.

O nosso fado leva-nos a querer a segurança onde devíamos arriscar e a correr riscos quando devíamos procurar a segurança. Talvez venha do século XVI este comportamento errático. A esperança do regresso do D. Sebastião vem de certeza.

Cá no nosso Alcácer deste lado do Mediterrâneo no partido da rosa agora murcha, começa a sucessão. Por ironia do destino e do nome do ex líder (à portuguesa, com acordo) andam os mais dialogantes, em filosofia mais socráticos, virados para o seguro. O seguro morreu de velho e para melhor está sempre bem…Quem muda Deus ajuda. Enfim um sem número de aforismos que podia citar. Como o povo tem pouca pontaria no voto, com jeito, ainda rouba alguns votos ao recém-eleito concorrente. Põe-se a jeito com o verde como fundo. Não quer, nem antes pelo contrário. Se tiver muitos apoios arrisca. Se pedirem muito ele vai para a frente. Acabo de saber que já avançou, via Facebook. Tio dixit. Lá está a seguir a metodologia do homem que nunca se engana, não gostava de coelho, foi à caça, veio de mãos a abanar, mas agora já gosta.

O candidato do regime e herdeiro cultural pelo costado da filosofia, limpa os óculos e já está perfilado na sucessão ao grande guru, ex-salvador da Pátria, líder (à Portuguesa, claro) que se sacrifica como único responsável pelo flop, até passar uns tempos e voltar de novo já com a imagem e fôlego recuperados. Uff… Este candidato socrático no sentido mais recente do termo, tem como grande argumento o que se passou em Felgueiras. Vai procurar uma semelhança com o verdadeiro pai (levanto-me e tiro o chapéu, neste momento) de todas as tendências do partido. Sem dúvida que se candidatar assistiremos a uma ida à Marinha Grande para o rapport. Mas entra bem no jogo, não falando disso. Ouvi-o ontem à noite, já com as costas quentes.

Nada de novo, mas não deixa de ser interessante o percurso dos novos leaders, perdão, dos chefes das maiores tribos políticas cá do jardim e a dança das cadeiras. Felizmente não ando nessas caldeiradas. Ontem a sopa ferveu e saiu da panela. Sujou o fogão todo. Talvez de propósito, para se fazer um outro rapport a outra situação muito mais dúbia. Veremos o que vai suceder, se alguém ainda vai entalar os dedos na porta que quis fechar a pontapé. E por falar em porta, já começaram as trocas de cromos para ver quem acaba a colecção. As oficiais, porque as outras há muito andavam em marcha.

E assim vai a nossa nação, formosa e não segura, enquanto o FMI já diz que a cantarinha vai à fonte, mas tem que ir mais depressa, que o caminho é difícil. Ou a cântara maior, para dar de beber a tanta gente …

O prémio EDP

Manda o new-gov, a bem da competitividade, do reforço do tecido empresarial, do estímulo ao empreendedorismo e à dinamização da E-conemia, instituir um novo prémio, para as empresas: O troféu EDP. O troféu EDP será atribuído anualmente por um júri, de personalidades distintas dos vários sectores da E-conemia, integrando forças vivas da sociedade e representantes do mundo Hacadémico.

O processo de atribuição dos 50 prémios anuais será regulamentado em portaria a publicar no prazo de um mês, contado a partir da data de publicação deste diploma, ficando o Instituto da Galhofa, do Riso Sarcástico e da Gargalhada nomeado gestor do processo.

Poderão candidatar-se ao troféu EDP, Empresa Devidamente Phodida, as empresas que percam, pelo menos 90% do seu Imobilizado Corpóreo, sendo que o total do activo não pode ter uma diminuição inferior a 85%. As viaturas ao serviço dos quadros da empresa não poderão ter mais do que 4 anos, contados a partir da data da matrícula.

Em cada mandato, o passivo terá que ter um aumento de 50%, sendo que o endividamento terá que apresentar um crescimento de, pelo menos, 50%. As empresas candidatas a este importante prémio poderão ter suprimentos, desde que em acta do Conselho de Administração não fique fixada uma taxa para os juros.

O prazo médio de pagamento a fornecedores deverá ser, no mínimo, de 8 meses.

Em caso algum poderão ser aceites candidaturas de empresas que cumpram o artigo 35 do Código das Sociedades Comerciais.

As vendas, no período em análise, terão que se manter ou diminuir, situação preferencial, e a ter havido investimentos terão que ser em áreas não fundamentais para a empresa. O aumento dos custos com Rendas e Alugueres será valorado, assim como os aumentos nas rubricas de Honorários e Trabalhos Especializados. Serão especialmente valorados investimentos em decoração, tais como mobiliário e estofos, cortinados, quadros e pinturas de paredes. Empresas que façam este tipo de investimento devem ter um envelope com todas as facturas, não discriminadas, e notas de débito da entidade que as pagou, correspondentes ao exacto valor das aquisições. Os trabalhos não podem ser acompanhados por ninguém profissional.

São critérios muito exigentes, mas a situação difícil que o país atravessa exige um esforço colectivo e, em especial, dos quadros das empresas. Este prémio destina-se a reconhecer esse esforço das empresas.

Será nomeada uma comissão para criar a imagem do troféu, Empresa Devidamente Phodida. As empresas vencedoras terão, obrigatoriamente, que inscrever a distinção “Empresa Devidamente Phodida”, com lettering próprio, em todos os documentos, sejam eles de uso interno ou não.

Publique-se, a bem da descapitalização.

Nota: Este texto segue o Acordo Ortográphico, nos termos da liberdade de graphia. Explicações adicionais sobre o acordo seguido pelo autor podem ser encontradas no artigo “Nem Phode nem sai de cima”, a publicar em data a anunciar, juntamente com as Chrónicas do Valle da Ironia, de Anthónio Bernardo Rhisos y Rhisos.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ovos Atirados: Receita simplex

Ontem o nosso futuro ex-PM (uff, só faltam 543 nomeações…), queixou em Barcelos da falta de democracia dos participantes num comício. Não me recordo se falou do respeito pelos outros, porque só de o ver, perco a atenção e desligo completamente. Contudo, ainda tive tempo de o ver perguntar em que Escola de Democracia teriam andado as pessoas que lhe atiraram os ovinhos. Não teria sido na do PS, garantiu.

Pois, com um alvo tão fácil de identificar, isolado no meio do palco verde (deveria ter sido vermelho, mas enfim), quem é que falharia? Alguém que na sua infância ou juventude tivesse atirado umas pedras a uns pássaros, ou umas setas a uns alvos improvisados com cadernos de escola, não seria de certeza… Quem seria? Alguém de bom senso, com esta crise que por aqui vai e de que ele é um dos pais, iria desperdiçar dois ovos daquela maneira? Não acredito.

Não apreciei o gesto, merecido ou combinado (a vitimização é frequentemente usada na política), mas a resposta é simples. Quem lhe atirou os ovos foi algum licenciado em Lançamento de Comestíveis e com Mestrado em Lançamento de Objectos Arredondados. Numa Universidade das Novas Oportunidades, claro.

E … ficámos com mais uma razão para gostar de Barcelos!

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