domingo, 22 de maio de 2011

Cocido Madrileño

Fechado na cozinha duas semanas inteiras, com um dia de folga (nem o Domingo para ir ver a miúda e vestir o fatinho de ir ver a Deus), quase me cansava dos tachos. Perdão das panelas, dos woks, das sauteuses e do resto da palamenta.

Mas não! A difícil situação internacional obriga à necessidade de intensificar as relações bilaterais, a partilha de experiências e o desenvolvimento de novas parcerias institucionais. As circunstâncias, com uma conjuntura depressiva, mas onde o nosso esforço faz a diferença, obrigam a uma difícil missão internacional, na capital del país hermano, que necesita ayuda, perdón, que me equivoco, es en portugues que escribo.

Há algum tempo tinha recomendado a criação de um facto político, mas não me referia a um acampamento nas Portas do Sol! Pensando bem, com aquele movimento nocturno até dá jeito umas tendas, já que a barraca está armada.

Voltando ao puchero, deixo-vos uma receita, verdadeira, de cocido madrileño! Deve ser bem regado com um rioja tinto, para excluir qualquer possibilidade de trabalho sério na parte da tarde. À noite, depois desta experiência gastronómica e de uma siesta pequena, já se devem ter recuperado as forças e a vontade de sair, que sítios não faltam.
Dito desta maneira até parece que vou de férias, o que não é o caso…Já que ando tão concentrado na cozinha, prometo que conto tudo no regresso.


¡Hasta pronto!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Contributos para uma metalinguagem da gastronomia - I

Aperitivo

Confesso que hesitei antes de escrever este texto e continuo a hesitar à medida que o vou escrevendo. Hesito por três razões distintas: Não gostava que acreditassem que pretendo fazer um tratado científico sobre gastronomia, com tomos sobre a gastronomia algarvia, alentejana, beirã, trasmontana, estremenha e menos ainda sobre a “nouvelle cuisine”, ou outra qualquer variante, corrente culinária de qualquer lugar onde tenha vivido ou experienciado (experienciado é de propósito, para me armar), alguns pratos diferentes, ou exóticos. Também não gostava que algum dos meus leitores pensasse que, pela minha actividade profissional ou dado o meu gosto pela culinária - por alguns pratos em especial - me estivesse a armar em Chef, ou grande conhecedor dos meandros dessa nobre arte… A última razão que me leva a hesitar prende-se o receio de desiludir quem me lê, na expectativa de encontrar um texto profundo, complexo, fundamentado, cheio de referências, mas claro e clarificador dos termos em uso nestas artes, o que obviamente não vai acontecer.

Depois desta introdução ao estilo New Socras, dizendo o que não vai acontecer (mesmo assim não convém acreditar), vejo que o texto já tem quase 200 palavras e por isso termino com a promessa de desenvolver todos os esforços, para atingir este desiderato blogosférico de contribuir para um maior conhecimento da riqueza semântica e das potencialidades da gastronomia nacional e internacional, nos diversos “terroirs” onde me movimento.

A vossa participação no inquérito sobre o livro das caras encoraja-me a produzir ainda mais e melhor apurados textos. Vou para o fogão de “sauteuse” em punho… Não acreditavam que eu tinha um tacho ou uma vulgar frigideira, pois não?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Socrastinar

Socrastinar, consiste em adiar repetidamente a revelação de factos importantes, recorrendo à mentira imaginativa e constante para se auto-justificar. Na maior parte dos casos os indivíduos com esta patologia acreditam nas mentiras que vão repetindo incessantemente. A atitude de Socrastinar é muitas vezes referida em linguagem comum como “fuga para a frente”, mas não deve ser encarada de ânimo leve, nem descuidado o acompanhamento constante aos pacientes que apresentem esta sintomatologia. Com o decorrer do tempo os sintomas agravam-se e as mentiras são mais elaboradas e mais credíveis. Contrariamente à procrastinação, em vez de comportamentos depressivos, este tipo de patologia leva a momentos de euforia, que se repetem cada vez mais frequentemente.

Quer saber mais sobre este tema? Precsa de apoio para algum conhecido? Ligue para a hotline do Tio, ou pergunte por email (resposta garantida nas 48 horas seguintes). Para casos urgentes mencionar no assunto do email a palavra URGENTE. Resposta no território nacional em 6 horas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Cozido à Portuguesa

É evidente que detesto pratos pesados, mas como os portugueses parecem gostar e querer mais, aqui vai a receita. Com uma pitada de saudades daqueles tempos áureos (só foi pena não haver a Áurea a cantar), em que dizíamos “À portuguesa só cozido”!!!

Ingredientes:
Nabos de várias dimensões. Tenha o cuidado de juntar alguns já passados, e outros ainda verdes.
Cebolas em quantidade suficiente para por tudo a chorar.
Chouriços gordos, se possível de má qualidade, dos baratos, feitos em fábricas, “à pressão”, sem nada de autêntico.
Dois bons melros, vários papagaios e alguns passarões. Cobras e lagartos, qb.
Pode juntar-lhe um coelhinho pequeno, em função do tamanho do passarão (inversamente proporcional).
Se tiver uma águia coxa, junte. Dá sempre bom aspecto e ajuda a manter a ligação dos ingredientes no tacho.

Modo de Preparação:
Unte o tacho com banha rasca, ou sebo autêntico, se possível.
Coza em lume brando, até o tacho ficar completamente queimado e a rebentar.
Amasse com pata de rinoceronte, até se atingir uma amálgama informe, tipo massa, e no fim tempere com lágrimas de crocodilo.

Sirva gelado, envolvido num bom buxo, muito elástico e salpicado de demagogia.
Pode decorar com figuras da forma do país, em massa de pasteleiro de cor castanha.

Cuidados a ter:
Este prato, pela sua consistência, tem muita tendência a colar às paredes do tacho, tornando-se muito difícil de remover. O sebo é muito importante para evitar esta aderência natural. Se acontecer rape completamente o tacho antes de servir (em vez do típico raspador em borracha, aka salazar, use um bisturi, para remoção cirúrgica).

Em vez de Cozido à Portuguesa, pode chamar-lhe o Caldeirão do Inferno ou, com mais cachet, Socras Soup.

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